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Dois filhotes ao mesmo tempo
Esta é uma daquelas situações que parecem que
deixam tudo mais fácil, mas na hora de pôr tudo em prática esta escolha só
causa estrago. Raríssimos são os donos de cães que conseguem educar mais de um
filhote ao mesmo tempo de maneira meramente razoável.
Dois filhotes bem
educados? Ainda estou esperando pra ver!
Eu sei que aos olhos humanos tudo funciona
muito bem: “quem cria 1, cria 2”; ou ainda “...tendo dois filhotes, eles
sempre terão a companhia um do outro, o que irá facilitar muito a minha vida
quando eu tiver que sair, ou deixá-los sozinhos, certo?”. NÃO!!! ERRADO! !!
O aprendizado canino é feito fundamentalmente em cima das conseqüências que
um ato acarreta – como, por exemplo, se o filhote faz xixi no lugar certo e é
elogiado, ele percebe que o xixi feito naquele lugar agrada ao seu líder. Da
mesma forma, o xixi feito no lugar errado deve ser reprimido para que o
filhote saiba que naquele lugar o xixi não é bem aceito. Através das
conseqüências opostas a cada ato é que o filhote terá base para aprender que
tipo de comportamento que queremos dele: o lugar certo gera um elogio, e o
errado gera uma bronca.
Quando temos dois filhotes, ao elogiarmos um
deles que está se comportando muito bem, provavelmente o outro filhote que
está roendo suas plantas estará ouvindo o mesmo elogio. Ora..., este filhote
só poderá pensar que o elogio é para ele! O que resulta disso? Ele irá
acreditar piamente que roer as plantas não só é permitido, como até
elogiado. Sabe quando o seu jardim ficará inteiro novamente? Nunca.
Eu sei que é muito fácil pensar “mas é claro
que o filhote sabe que é errado roer as plantas”. E eu pergunto: claro
para quem? Não para um filhote que tem certeza de que tudo o que há na sua
casa só está lá para a diversão dele.
Continuando... Todo este método de causa
e conseqüência só funciona se feito exatamente na hora da ação. Os cães, por
não terem noção de tempo, não conseguem lembrar coisas passadas há mais de
alguns segundos. Se o xixi fora de lugar só foi encontrado depois de feito, a
bronca dada não terá efeito nenhum, pois o filhote jamais entenderá que a
bronca é conseqüência do xixi. Por conta disso ao educarmos um filhote temos
que vigiá-lo o máximo possível.
Bem, se vigiar a bexiga de UM filhote já dá
trabalho, imagine de DOIS. E ainda assim, como o filhote saberá parta quem é
a brinca? Portanto ou você põe uma babá para cada filhote, ou jamais estes
filhotes aprenderão a fazer xixi no lugar certo. Aliás, esta é uma das
características mais constantes neste tipo de situação, e normalmente é
exatamente o motivo dos donos – que fizeram esta opção – pedirem ajuda.
A coisa mais importante, porém, ainda está por
vir: todo filhote precisa de um
líder que irá protegê-lo e guiá-lo. O líder é aquele que dará
referência ao filhote de como se comportar. Toda a compreensão do filhote
frente ao mundo e frente a essa matilha dependerá de que tipo de sinais este
líder dará a ele. Tal líder jamais poderá ser um outro filhote. O ideal é que
este líder seja o dono, e numa segunda linha hierárquica um cão mais velho.
Na maioria das vezes o que se tem neste tipo de
situação é uma matilha cujo líder não está presente, e o que resta são dois
pobres filhotes sendo educados por ninguém.
Tais filhotes logicamente ficarão super
ansiosos por sentirem-se abandonados, sem nenhuma referência de como se
comportar, e sem ninguém que os ampare e os proteja. Tal cenário só pode
gerar um ambiente tremendamente tenso. Os filhotes ficarão sempre numa eterna
ansiedade, e além disso, aqui cabe sempre a lógica canina de que se o dono não
é o líder, é por que o líder deve ser um dos filhotes. Então você cairá
exatamente no mesmo problema dos
cães solitários,
onde um filhote tem que ser líder dele mesmo sem ter nenhuma capacidade e
aptidão para tal. Porém, aqui você terá problemas em dobro: o dobro de xixis e
cocôs no meio da sua casa; o dobro de plantas e objetos roídos; etc.
Ao resolver ter dois filhotes em casa chega-se
apenas o ponto oposto ao desejado. Ao invés de evitar a solidão do filhote,
você acaba por ter dois filhotes tremendamente agitados, solitários, mal
educados, e logicamente infelizes.
Depois de ler tudo isso, é muito provável que
você esteja se perguntando se esta situação é tão confusa, como os cães
selvagens conseguem educar vários filhotes ao mesmo tempo, e nós humanos não?
A resposta é bastante simples: numa matilha sempre há várias fêmeas para
educar os filhotes. Ou seja: numa matilha há sempre muitas babás. Já na sua
casa, dificilmente você conseguirá ficar de olho nos dois o tempo todo, e é aí
que começam os seus problemas.
A solução para este caos? Só conheço uma: dar
um dos filhotes! Eu sei que muita gente acha esta solução extremamente cruel,
mas não é! Doando um dos filhotes você pode estar garantindo que cada um
deles – separadamente - possa ser educado devidamente e que vire um adulto
equilibrado. Mantendo os dois filhotes na mesma casa, nenhum deles jamais
conseguirá se comportar bem, e sua convivência com tais cães sempre será muito
aquém do esperado. Sempre haverá muito estresse e pouca diversão. Sob este
ponto de vista, qual situação te parece mais cruel?
Ter dois cães é uma excelente opção, desde que
feita da forma certa. Ou seja, para o segundo cão entrar na matilha, o
primeiro já deve devidamente educado e ambientado na sua casa, a sua liderança
já deve estar estabelecida, e este primeiro cão deve estar no mínimo há uns 6
meses na sua casa. Então sim você poderá introduzir este novo membro na
matilha de forma que todos se entendam muito bem.
Boa sorte!
Maíce Costa Carvalho,
adestradora
maice@dogtimes.com.br
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