por Ricardo Bonalume Neto
Foi uma grande honra ter ajudado esta Revista a escolher as fotos de
cães e gatos para o calendário 2007. E foi particularmente agradável descobrir
como muitos desses bichos foram resgatados das ruas e agora são bem tratados,
bem amados e bem fotografados pelos leitores.
Eu e a Namorada temos algo em comum, além de sermos jornalistas e
detestarmos pimentão: somos fãs de bichos. Também levamos a sério aquilo que
os etólogos, os especialistas em comportamento animal, chamam de "vínculo
homem-animal". Ela tem uma minimaltês, eu tenho duas cocker spaniel inglesas
-umas das quais achada faz poucos meses na rua e adotada. Duas gatas SRD ("sem
raça definida", o nome chique para tombalata) completam meu minizôo.
Trata-se de um vínculo antigo. Tive o prazer de relatar em 2004 nesta Folha
o mais antigo achado arqueológico do "vínculo gato-homem", em Chipre, 9.500
anos atrás. Já os cães e o seres humanos coabitam faz pelos menos 12.500 anos.
A quebra desse vínculo milenar é portanto algo grave, sinal de que há algo
errado no relacionamento entre o mamífero primata e o mamífero carnívoro.
Eu e a Namorada, coincidentemente, lemos faz pouco o best-seller "Marley &
Eu - A Vida e o Amor ao Lado do Pior Cão do Mundo", do jornalista americano
John Grogan. Gostamos -eu até resenhei o livro na Ilustrada. Há trechos em que
é difícil conter as lágrimas.
Marley não era um cão tão ruim assim, como Grogan declarou em entrevista
recente à Revista. Mas o comportamento alucinado desse labrador com nome de
cantor de reggae o faria ter boas chances de ser abandonado pelos donos.
Infelizmente é o que indicam detalhadas pesquisas feitas nos EUA sobre os
motivos pelos quais donos abandonam seus pets em abrigos de animais, quebrando
o milenar vínculo. Mais triste ainda é descobrir que muitos abandonos
acontecem durante as festas de fim de ano e nas férias. Soltar o cachorro na
rua ou entregá-lo à carrocinha não parece ter muito de espírito natalino. Mas
acontece cada vez mais.
Pelo menos um motivo comportamental foi alegado em 40% dos casos de
abandonos de cachorros e 28% no caso de gatos. Quando apenas um motivo era
dado para o dono se livrar do seu pet, uma causa comportamental era citada
para 27% dos cães e 19% dos gatos.
Mas uma olhada nas listas desses motivos deixa claro que o grande culpado
pela quebra do vínculo não é o animal, e sim o seu dono. Os motivos ou são
fúteis, ou demonstram a ignorância do dono sobre comportamento animal.
Por isso, pense bem mais que duas vezes antes de adquirir um animal
doméstico, especialmente se você nunca teve um. Houve uma epidemia de dálmatas
abandonados ou devolvidos por conta do filme "Os 101 Dálmatas". Aquele filhote
branquinho pintadinho de preto logo crescia e virava um monstro destruidor de
sofás e produtor de fezes descomunais, para desespero dos pais que cederam ao
apelo dos filhos e compraram o cão da moda.
A pesquisa mostra que cada vez mais são abandonados cães adultos, quando o
mais comum no passado era que filhotes fossem desprezados -em geral, de
ninhadas que vieram por acidente (isto é, o dono não tomou a devida precaução
para evitar que a cadela ou gata ficasse prenhe). O animal abandonado mais
comum é aquele que não sofreu cirurgia para deixar de reproduzir, jovem (cães
com menos de dois anos, gatos com menos de três), e de raça mista. O dono
"abandonador" mais provável é homem com menos de 35 anos, com no máximo o
segundo grau completo.
O primeiro motivo mostrado na pesquisa americana é o mesmo para os dois
animais: "ele suja a casa". O que querem essas pessoas? Cães e gatos que não
defequem, não façam xixi? Que não andem na terra e na lama, se houver lama e
terra para andar? Como aquele cão-robô japonês?
Se você gosta do seu carpete fofo ou do seu tapete persa, pense duas vezes
antes de soltar um filhotinho em cima dele. Se você estima seus bibelôs e
badulaques em mesinhas e prateleiras, use bom senso e tire isso do caminho do
rabo abanando do cachorro ou das patas curiosas do gato.
Grogan e a mulher queriam um cão para servir de "treinamento" para ver se
seriam capazes de cuidar de um filho no futuro. Prepararam a casa para receber
o labrador Marley. Fizeram o mesmo que fariam no caso de um bebê: retiraram
objetos perigosos ou vulneráveis.
No fundo, quem precisa ser educado e instruído é o ser humano. A pesquisa
revelou graves deficiências de conhecimento sobre comportamento animal e
muitas expectativas falsas.
A lista de motivos inclui "requer muita atenção" e "ativo demais". Culpa do
cão ou do gato? Em geral, é a pessoa que não imaginava o trabalho que teria
pela frente ou optou pela raça errada. Se você vai trabalhar e deixa o bicho
sozinho a maior parte do dia, é óbvio que ele vai querer atenção quando você
chega -cansado- do trabalho. Entediado, ele pode até destruir parte da casa
quando você está fora. Se não puder dedicar algum tempo ao seu pet, por que
ter um? Será que um aquário não teria sido uma opção melhor?
Cães e gatos vão ficar com você por mais de uma década, se você não quebrar
o vínculo antes.
Um amigo me falou de uma campanha contra o abandono que tinha um comercial
particularmente tocante. Um cão deita sobre um túmulo. "Ele nunca abandonou
seu dono. Por que você quer abandonar o seu animal?"