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O cão na Antiguidade Depois da domesticação do lobo, a história do cão começa com a das civilizações humanas.
O cão está presente não só nos morros de conchas das praias do Mar do Norte (aproximadamente 7.000 a.C.), mas também nas paredes pintadas do tassili do ajjer no Saara e nas rochas gravadas do lago Onega, na Rússia. Assim, a domesticação dos cães produziu-se simultaneamente, em vários pontos do globo durante o mesolítico, o que ocasionou, no neolítico, o aparecimento, por seleção, de várias raças de cães, muito diferentes umas das outras, entre as quais predominam dois tipos: o Galgo e o Molosso. Os arqueólogos encontraram testemunhos da presença de cães desde o começo do neolítico, concretamente, restos de dentes nos ossos de outras espécies de animais. No Egito e na Assíria No Egito, era freqüente que se representassem cães nas pinturas murais ou nos baixos-relevos. Galgos e mastins com as orelhas caídas ou levantadas e uma pelagem lisa ou mosqueada, aparecem nos afrescos em que se reproduzem cenas de caça, e também se encontram nos desenhos que decoram as tumbas; chegou-se mesmo a mumificar alguns cães, assim como seus donos. Os baixos-relevos do palácio do rei Assurbanipal, na Assíria, mostram cães que participam ativamente da caça e não hesitam em atacar leões. Alguns cães de caça, enormes molossos muito musculosos de corpo pesado e compacto, foram objeto de notáveis honras como demonstram as estatuetas de argila com sua imagem para imortalizar a sua lembrança. Creta No oeste de Creta, Fiktina era a deusa da caça (deusa principal); aparece numa pintura rupestre contemporânea dos últimos grandes palácios cretenses (no monte Kapparukephala) acompanhada por seu cão. A primeira proeza que se exigia de qualquer jovem para sua iniciação no mundo dos guerreiros, era apoderar-se de uma peça de caça: o cão servia de valioso auxiliar. Uma caça muito difundida em Creta consistia em erguer uma longa barreira de valas contra a qual, os homens e os cães, encurralavam o veado. Na Grécia Os gregos, que sempre consideraram o cão como caçador e guardião, foram os primeiros que os adotaram como animal de companhia. Em todo o caso, a sua nobreza continuava ligada à caça (a palavra grega kunegos, que designa caçador, significa literalmente "condutor de cães). No tratado intitulado Kunegitos (Sobre a caça), Xenofonte descreve pormenorizadamente, a criação e o adestramento dos cães de ataque e dos cães de corrida. Alguma raças da Lacônia (país dos espartanos), eram famosas pela sua velocidade e eficácia. Em vasos pintados e colunas da época clássica, aparecem cães de caça de orelhas finas e pontudas e focinho afilado. Aristóteles dizia que eram uma mistura de cães e raposas. Por outro lado, na Odisséia, Homero celebra a fidelidade do cão de Ulisses, o único que reconhece seu amo quando ele regressa à pátria disfaçado de vagabundo, depois de uma longa ausência. Algumas cidades gregas chegaram a gravar um cão em suas moedas. Em Roma
O cão tem a trágica honra de estar presente nos grandes jogos oferecidos ao povo, e na arena do circo combatia com ursos, incentivado por um público ávido por sangue. Também davam seu sangue quando enfrentavam terríveis peças de caça; Apuleio descreve uma cena de caça que terminou tragicamente: "tínhamos chegado perto de uma colina envolta em sombras pelas ramagens que impediam a visão e ocultavam os veados aos olhos dos caçadores. Então, soltamos os cães, caçadores de boa raça, para que surpreendessem a caça no fundo dos esconderijos. Graças às lições de um sábio em adestramento, dividiram-se e rodearam todas as saídas. No começo, limitavam-se a lançar grunhidos surdos: depois, a um sinal, o vibrante clamor dos seus latidos discordantes retumbou bruscamente por todo o lugar. Mas o que apareceu não foi um veado nem um gamo, mas um enorme javali [...] Do seu pêlo ensanguentado, sobressaíam pedaços de carne, tinha a pele eriçada de pêlo áspero, sobre o seu espinhaço levantavam-se cristas de pêlos duros, aguçava ruidosamente as defesas cobertas de espuma e seus olhos ameaçadores tinham um olhar faiscante e os furiosos ataques de seu focinho trepidante faziam com que todo seu corpo parecesse um raio. Para começar, estripou e matou os cães mais audazes que se tinham lançado em cima dele para mordê-lo aqui e ali". A criação de cães é uma arte, e a Geórgicas de Virgílio, contém uma série de recomendações para os criadores: "alimente com soro de leite a ninhada de Galgos de Esparta e o pequeno Molosso. Com tais guardiães pode ficar tranquilo pois nenhum ladrão noturno roubará seus rabanhos, nem precisará temer as incursões dos lobos nem dos vagabundos da Ibéria que atacam pelas costas. Com seus cães, caçará lebres e gamos. Os latidos da matilha farão com que o javali volte ao seu covil e, nas altas colinas, o grande cervo espantado pelo clamor cairá nos seus braços". Mas, numa sociedade tão refinada como chegou a ser a romana durante o Império, também se reservou um lugar para o cão de companhia. O poeta Marcial descreve, com graça e delicadeza, a pequena cadela Issa, que tinha encantado seu amigo Publio: "Issa é mais formosa que o pássaro Lesbe, mais pura que um beijo de pomba, mais carinhosa que todas as moças, mais preciosa que as pérolas da Índia; Issa é a cadelinha querida de Publio. Quando se queixa, parece que fala, compreende a tristeza e a alegria. Descansa apoiada na nuca e dorme de uma maneira que não se ouve respirar. Quando precisa fazer suas necessidades, nunca deixa a menor mancha, mas acorda o dono, suavemente, com uma pata e pede-lhe que a baixe da cama para fazê-las. É tão inocente, esta pequena cadela, que até ignora o amor; e não sabemos de nenhum esposo que seja digno de uma tão terna virgem. Para que, na sua última hora, não se fosse completamente, Publio reproduziu sua imagem num quadro em que se observa uma Issa tão parecida que nem mesmo a própria Issa se parecia tanto consigo mesma". Na Gália Quanto aos gauleses, além de utilizarem cães para a caça e a defesa, também lhes destinaram funções mais originais, como demonstrou a arqueologia. Assim, nas cerimônias religiosas sacrificavam-se cães, cujos restos estão presentes nas ruínas de santuários como os de Ribemont-sur-Ancre e Gournay-sur-Aronde. A honra de ser consagrado aos deuses era acompanhada pela de seguir o dono ao túmulo, como mostram, por exemplo, as sepulturas das necrópoles de Tartigny e Compiégne. Mas, os gauleses também utilizavam o cão como manjar: na ruínas de Villeneuve, o arqueólogo Patrice Meniel constatou que "os ossos do esqueleto mostram marcas claras de despedaçamento em forma de cisões localizadas perto das articulações, como as do cotovelo ou da bacia, e cortes de carne que se observam primeiro na parte superior dos membros, ou seja, na mais carnuda". Além do consumo de carne, comum entre os gauleses e chineses, os gauleses faziam uma ampla utilização da pele de cão, por exemplo, na confecção de tapetes, segundo testemunhos de Diodoro. Muitos esqueletos, como os encontrados em Beuvais, Villeneuve, Champlieu, apresentam "marcas de incisão cuja localização, no focinho e extremidades dos membros, provam que se tinham feito cortes na pele. As peles curtidas dão prova da existência de uma indústria de peles muito ativa.
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