Daniely tem apenas um ano e quatro meses. Fala perfeitamente "mamãe" e
"papai", mas bate a língua nos dentinhos quando grita o nome da pastor
alemão Cony, 2. Só sai "Có". Poucas palavras não têm sido empecilho para que
criança e cachorra emitam, cada uma a sua maneira, sinais claros de
entendimento.
Um mês antes de completar um ano, Daniely pulou cedo da cama. Sem dar um
pio, a garotinha saiu do quarto, atravessou a cozinha e o quintal, percurso
aproximado de 15 m, e seguiu em direção ao lago, de 1,5 m de profundidade,
nos fundos da residência - uma chácara em Cotia (Grande SP), quando foi
surpreendida por Cony.
A cachorra abocanhou a saia da garotinha e a derrubou. Agitada,
Cony circundou a criança e impediu que Daniely se levantasse. A menina,
acuada, começou a chorar, ao mesmo tempo em que a cadela, num comportamento
atípico, não parava de latir.
Dentro da casa, a mãe, a auxiliar administrativa Tatiane de Araújo, 23,
nem se deu conta do movimento da menina.Encontrou a filha sentadinha e
chorando. A cachorra formava uma espécie de barreira de proteção ao redor
dela, a poucos passos do lago. A garota não tinha um arranhão, apenas sua
saia exibia uns furinhos na parte de trás.
O mais surpreendente dessa relação é que a cadela não pertence a nenhuma
das duas. É do vizinho. Freqüenta a casa de Tatiane desde filhote, antes
mesmo de Daniely nascer.
No oitavo mês de gravidez, Tatiane passava horas intermediando uma
espécie de diálogo, inventado por ela, entre bebê e cachorra.
Na primeira vez que engatinhou, Daniely seguiu em direção a "Có". Tatiane
acredita que Cony agiu motivada pelo instinto materno.
Para Mauro Lantzman, 46, professor de psicobiologia da PUC, especialista
em comportamento animal, por existir um vínculo afetivo entre elas, a cadela
agiu para proteger a criança. Há situações, diz ele, como o fato de a fêmea
estar num período hormonal, em que pode exibir um comportamento materno,
direcionado a outra espécie que o desencadeie.
Sinais
É fato que o homem sabe muito bem quando o cachorro está triste, alegre,
agressivo ou quer brincar. Mas e o bicho? A ciência diz que cães são capazes
de ler as emoções de seus donos e responder a eles, num fenômeno chamado de
ressonância afetiva. Segundo o psicólogo César Ades, 64, especialista em
comportamento animal da USP, esse fenômeno é marcado por uma leitura de
sinais, que são construídos ao longo do relacionamento entre donos e bichos.
"É um entendimento tácito com símbolos próprios, estabelecidos na
interação entre os dois. No relacionamento, ambos aprendem a
decodificá-los", diz. E isso também se aplica aos gatos, ainda que cães
sejam mais aptos a interpretar sinais.
Tidos como frios e distantes, os bichanos carregam o rótulo de
independentes. Mas isso não significa que histórias de interação entre seres
humanos e felídeos não possam ser repletas de laços afetivos.
A secretária Arlete Heleno, 42, não tem dúvida de que sua gata sem raça
definida Ximena, 15, sente quando ela chega em casa com dores. "Ninguém
suportou tanto sofrimento ao meu lado como ela", conta Arlete, que encontrou
a gata numa lata de lixo. A secretária enfrentou um ano de cama depois de
sofrer um acidente de moto em maio de 1993. Teve 13 fraturas nas duas pernas
e perda de massa óssea. Por pouco não amputou a esquerda, mas perdeu parte
dos movimentos do pé.
Cinco dias de internação, e Arlete foi para a casa da mãe. Estava
irreconhecível, coberta por curativos e cheirando a remédio. Ximena deitou
ao lado da dona. A gata passava a patinha em seu rosto, como se enxugasse
suas lágrimas. Nos quatro primeiros meses pós-acidente, a secretária se
submeteu a uma bateria de radiografias. Ximena a esperava no portão e
acompanhava a dona até o quarto. Lá ficava.
A vida solitária e restrita a medicamentos, cama e hospitais fez com que
Arlete engordasse 40 kg e caísse em depressão. Houve dias em que ela
acordava chorando e passava o tempo todo assim. Ximena não arredava as
patas.
Amigos e parentes visitam num dia, aparecem noutro, percebem que
tudo está igual e não dão mais as caras. Quem segurou a barra ao lado da
secretária foi a gata Ximena. Só saía do quarto para comer na hora em que a
dona fazia o mesmo. Ou quando ia ao banheiro. "Até nisso, ela foi de uma
fidelidade ímpar", desabafa.
Arlete já viu sua afeição pela gata ser taxada de "maluquice", "balela" e
"estupidez". Durante um ano de convivência intensa, a secretária passou a
entender o que Ximena quer dizer quando se esfrega entre suas pernas, dá um
miado em seu ouvido ou escorrega a patinha peluda no rosto dela. Para esses
gestos, prefere ignorar adjetivos.
O comerciante Marcos Eliseu Balles, 60, também tem uma dívida,
"impagável", com o seu gato. "Devo a minha vida e a da minha mulher a ele."
Sábado frio de 1995, Marcos e a mulher, Stella, chegavam em casa por
volta da uma hora da manhã. Com uma enxaqueca daquelas, acentuada por uma
sinusite, o comerciante colocou água no fogo para fazer inalação. Cansado e
sob efeito de um coquetel de analgésicos, caiu no sono -Stella estava
apagada.
Duas horas e meia mais tarde, Marcos ouviu um ruído na porta do quarto.
Ruivão, persa mestiço, hoje com 14 anos, pela primeira vez tentava invadir
território proibido. Até então, o gato tinha sido criado para permanecer
longe dali.
Segundo a veterinária e terapeuta Rubia Burnier, especialista em
comportamento animal, com estudos no Brasil e no exterior, o gato tem seus
sentidos muito apurados e isso faz com que ele tenha uma percepção aguçada
de mudanças ambientais. O cheiro despertou seu instinto de sobrevivência e
ele procurou uma rota de fuga.
Assim que abriu a porta, para sua surpresa, Ruivão entrou no quarto e
subiu na cama. Ficou olhando o dono e esticou as unhas na manga de seu
pijama. Marcos tentou enxotar o bichano, virou para outro lado e pegou
novamente no sono. Mas Ruivão não desistiu. Vinte minutos depois, o gato
acordou o dono, batendo mais uma vez em seu ombro.
O comerciante se levantou no momento em que o gato pulou no chão,
como se quisesse mostrar o caminho. Saiu do quarto e de cara sentiu um
cheiro forte. A água havia fervido e apagado o fogo. A cozinha estava tomada
pelo vazamento.
Fechou o gás e abriu janelas e portas, sem acender a luz, o que poderia
ter provocado uma explosão. Antes do episódio, Marcos tinha predileção por
cães e certa resistência a gatos. Desde aquela noite, Ruivão conquistou,
além de respeito e simpatia dos donos, um lugar cativo ao pé da cama do
casal.
Contato íntimo
O vínculo entre homens e pets passa por uma nova transformação, acredita
Mauro Lantzman. Cães e gatos estão cada vez mais dentro de casa por conta da
nova organização urbana (proliferação de apartamentos, quintais menores).
Com essa interação, eles acabaram estreitando suas relações sociais e
afetivas, muitas vezes suprindo essa carência humana, numa sociedade
individualista e solitária.
Tanto do ponto de vista cultural como biológico, o homem vem lapidando
seu aprendizado com os bichos pelo contato e também pela observação, analisa
o professor Mauro Lantzman. "E os pets adaptam seu repertório comportamental
à convivência com os seres humanos."
É difícil negar que o convívio entre os donos e bichos traga ganhos tanto
para a saúde como para a mente. Um trauma, por exemplo, que pode causar um
seqüestro relâmpago, foi encurtado graças à ação de (quem diria) uma poodle.
Vale registrar que qualquer cachorro, independentemente da raça, tem
instintos de defesa e proteção, segundo Rubia, autora de uma pesquisa sobre
agressividade canina. A reação depende do tipo de relação que o animal
mantém com as pessoas e do seu vínculo afetivo.
Véspera de Réveillon de 2003. A empresária Licênia Fang, 59, seu marido,
Waldo, 56, e a cachorra Meg, 12, estavam a caminho da rodovia Imigrantes,
rumo ao litoral. Num semáforo, cinco assaltantes fizeram os três de reféns.
Dois deles acompanharam Waldo até o caixa eletrônico, onde sacaram R$ 600,
enquanto os outros três aguardavam no carro.
Meg não suporta gestos ameaçadores em direção à dona. Qualquer
movimento do assaltante era motivo para a cachorra disparar a latir em
defesa de Licênia.
"Só caiu a minha ficha quando o ladrão me disse que se a cachorra não
parasse, daria um tiro nela. Fiquei desesperada", conta a empresária.
O assaltante retirou da bolsa de Licênia todos os cartões de crédito e,
quando viu que a empresária usava um valioso relógio, tentou arrancá-lo. Foi
a deixa para Meg avançar sobre o braço dele. Naquele momento, a empresária
teve medo de uma reação drástica dos bandidos.
Para sua surpresa, os assaltantes abandonaram o carro, se juntaram aos
outros e fugiram. Se não fosse por Meg, vai saber o que teria acontecido?
A poodle sempre foi muito frágil, com problemas graves de saúde. Tem
desvio nos ossos das pernas, anda com dificuldade e sofreu duas cirurgias de
correção nas patas traseiras. Tudo isso acompanhado ao vivo pela
proprietária. Como se vê, a fidelidade não é só canina.
Fragilizada, Meg ainda arrumou forças para revelar seu "espírito pit bull".
Licênia agradece.
"Ela me dá carinho espontâneo. Sabe os momentos em que estou
triste. Quando choro, vem me lamber", diz. "A gente se conhece cada vez mais
e, do nosso jeito, nos entendemos muito bem, obrigada."