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Caminhos
da amizade
A
advogada Thays Martinez, de São Paulo, todos os dias pega o metrô e desce na
Avenida Paulista, o coração financeiro da cidade. Passa o dia no escritório,
onde analisa as estratégias de negócio do ABN Amro Bank, um dos maiores
do país. Além de profissional bem sucedida, antes dos 30 anos, dois detalhes
chamam a atenção: Thays é deficiente visual e tem Bóris, seu cão labrador,
para se locomover pela cidade. O mais impressionante, no entanto, é que foi
uma luta para a advogada conseguir que Bóris tivesse acesso a todos os lugares
onde ela tem que ir. Exemplo: a Companhia do Metropolitano, administradora do
metrô, recorreu contra a liminar que permite Thays e Bóris andar nos trens.
Alega que o cão assusta as pessoas.
Isso mostra a
falta de intimidade do País com a questão da inclusão do deficiente à
sociedade. Além de Bóris, há apenas 16 cães-guia no Brasil. Todos foram
treinados no exterior. Thays conseguiu o seu por meio da Leader Dogs for the
Blind, nos Estados Unidos, instituição para deficientes visuais. Detalhe: não
pagou nada pelo curso ou pelo cão.
Agora, Thays e
alguns de seus colegas querem trazer este tipo de trabalho para o País. O
primeiro passo já foi dado. Eles batalham pela aprovação de uma legislação que
garanta a livre circulação de cães. Isso evita constrangimentos e litígios
como o que a advogada enfrenta contra o metrô de São Paulo. "O próximo passo
será fazer todo o treinamento no Brasil", explica Thays. "O cachorro oferece
uma melhoria inacreditável na qualidade de vida. Hoje posso me locomover mais
rápido. Bóris evita os buracos e qualquer obstáculo aéreo", afirma. Sem contar
que ele ajuda na interação social. "Antes as pessoas se aproximavam por
piedade. Hoje, elas chegam para um bate-papo normal. O Bóris é um bom motivo
para puxar conversa", diz Thays.
O problema é que muita gente
não resiste e tenta brincar com o cachorro quando não deve. Enquanto guia seu
dono, ninguém deve desviá-lo de sua tarefa. Afinal, ele está em horário de
expediente. E nem pense em dar comida a ele. "Eles são tratados apenas com
ração", avisa Thays. Ela explica ainda que o bom comportamento do cachorro em
locais públicos, como restaurantes e shoppings depende dele não ter vontade de
experimentar o que está sobre a mesa.
Matéria publicada
na revista MELHOR AMIGO, setembro/03
casadoramo@casadoramo.com.br
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