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Um hospital enfrenta crueldade contra animais
Dimensão da
desumanidade parece não ter limites;
violência contra animais agora é crime
Paulistanos adotam bichos
maltratados
UILSON PAIVA
Um gato persa com um olho furado e uma
orelha arrancada pelo dono. Uma cadela vira-lata obrigada a manter relações sexuais com
um homem alcoólatra. Situações como essa, que até o começo do ano não passavam de
contravenção penal, foram elevadas à condição de crime pela nova lei ambiental.
A partir de agora, os maus-tratos contra
animais domésticos - a quem, como o nome diz, os donos deveriam devotar predileção e
estima - são passíveis de pena de até 1 ano de prisão, mais multa. A medida é um dos
grandes avanços da Lei 9.605/98, de 12 de fevereiro deste ano, que entre outras coisas
definiu inovações com relação aos direitos dos animais.
Apesar de ter proporcionado redução nas
penas de alguns crimes graves - a exportação de peles e couros de anfíbios e répteis,
por exemplo, rendia 5 anos de reclusão e, pela nova lei, 3 - e de ter eliminado a
inafiançabilidade dos crimes, a lei assegura avanços. "Cometemos muitos equívocos,
mas politicamente foi a lei mais aconselhável para o momento", observa Antônio
Herman Benjamin, coordenador das Promotorias de Justiça Ambientais de São Paulo, que
participou da comissão de juristas que preparou a lei.
Ele aponta como avanços o aumento do leque
de punições contra animais - antes a lei deixava de fora os domésticos, domesticados e
exóticos - e a maior precisão do artigo em que se define violência contra animais.
"Antes, a lei só falava em crueldade; agora, fala em abuso, maus-tratos, ferir e
mutilar."
Há novidades em outros pontos da Lei dos
Crimes Ambientais. O artigo 32, por exemplo, prevê punição nos casos de experiências
didáticas ou científicas com animais, nos casos em que haja recursos alternativos.
"Entramos para o grupo de países modernos que atentam para procedimentos dolorosos
em animais de uso científico", acredita.
Estimação - A possibilidade de
punição mais rigorosa para quem maltrata animais domésticos é um alento para as
entidades protetoras da fauna. Em São Paulo, uma medida da crueldade contra cães e gatos
pode ser obtida no hospital mantido pela União Internacional Protetora dos Animais (Uipa)
- entidade criada há 103 anos e que possui unidades em todo o País.
É para lá que são levados os animais
encontrados na rua ou apreendidos depois de denúncias feitas à entidade. Entre os 1,1
mil cães e 560 gatos atualmente esperando adoção nos abrigos, boa parte foi vítima de
maus-tratos.
"Atualmente, dos seis casos trazidos
por dia, metade é de animal atropelado ou maltratado", afirma o administrador do
hospital, João Vicente Netcer. As agressões vão de mutilação de patas e orelhas a
queimaduras e violência sexual.
"É comum chegarem gatos queimados com
óleo ou água quente", conta o veterinário Cláudio Ribeiro Cruz, há 7 anos
trabalhando no hospital. Andar pelos canis e abrigos de gatos expõe outra situação de
violência contra os animais: o abandono.
Divididos em canis superlotados, os
cachorros aproximam-se das grades e começam a chorar ao menor sinal da aproximação de
uma pessoa. "Choram porque tinham dono", observa Cruz. "Esses geralmente
morrem aqui porque tinham casa e não agüentam."
O desprezo não atinge somente os
vira-latas. "Alguns cockers ficam cegos, com a idade, e os donos os jogam fora",
acusa o veterinário. A maioria dos cachorros de raça, no entanto, acaba sendo adotada,
diferentemente do que ocorre com os vira-latas. "As pessoas têm de se conscientizar
que, quando pegam um animal para criar, devem ficar com ele, em todos os momentos, até
ficar velho e vê-lo morrer também."
Justiça - Se ajuda na assistência
médica, com relação à punição dos agressores de animais a Uipa é ineficiente. A
conselheira e voluntária da entidade Ana Lúcia Lourenço afirma que, mesmo com a nova
lei, nos casos de denúncia, a entidade apreende os animais, mas não registra o caso na
Polícia Civil ou no Ministério Público (MP) - impossibilitando a condenação judicial
dos culpados.
"Os casos não vão para a Justiça
por falta de condições financeiras de a gente acompanhá-los, já que não temos
departamento jurídico", explica Ana Lúcia. O coordenador das Promotorias de Meio
Ambiente, no entanto, afirma que o inquérito é aberto pelo MP sem necessidade de o
denunciante ter advogado. Basta a denúncia.

Paulistanos adotam bichos maltratados
Revoltadas com
informações sobre as crueldades sofridas por animais, muitos ofereceram ajuda
O gato persa que teve um olho perfurado e a
orelha direita cortada e a cadela vira-lata que sofria violência sexual de seu ex-dono
ganharam um lar. Depois da publicação de reportagem no Estado, ontem, revelando os
maus-tratos praticados contra animais domésticos, houve um grande interesse de pessoas em
adotar cães e gatos recolhidos no hospital da União Internacional Protetora dos Animais
(Uipa).
"Passei boa parte do dia atendendo ao
telefone", disse Ana Lúcia Lourenço, conselheira da Uipa. As pessoas - da capital,
do interior e até do Ceará - telefonavam para pedir informações sobre adoção,
oferecer ajuda à entidade e manifestar indignação contra a violência sofrida pelos
animais.
Mais de uma pessoa ofereceu-se para levar o
gato persa para casa. "Mas a prioridade é de uma senhora que prometeu estar amanhã
(hoje) cedinho no hospital para pegá-lo."
Outra mulher, moradora do Morumbi,
comprometeu-se a adotar a cadela que sofria violência sexual de seu dono, um funcionário
público alcoólatra. "Ela também ofereceu ajuda e disse que já foi até Paris para
conhecer Brigitte Bardot (notória defensora de animais)."
O funcionário público federal João Ricardo
Santiago, de 30 anos, leu a reportagem e resolveu, com a mulher, adotar dois cachorros.
Caroline Bonato, de 12 anos, telefonou para o jornal para pedir informações sobre os
animais abandonados. "Já tenho um passarinho, agora acho que vou adotar um
cachorro." Quem tiver interesse em adotar os cães e gatos abandonados deve ligar
para a Uipa, telefone 3641-6021 ou para 900-0216, em que a ligação é paga.
Serviço: Uipa. Tel. (011) 900-0216.
Lpca. Tel. (031) 224-4735. Wspa. Tel (021) 527-7158/286-3940.
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Publicado no jornal O
Estado de São Paulo, 25 e 26/10/98
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