Profissão: Adestradora


Não são poucas as pessoas que, apaixonadas por cães, pensam como seria bom trabalhar com os peludos... Alguns optam pela veterinária... mas nem todos querem seguir esta linha e passam a considerar outras opções... uma das mais comuns é a opção pelo ADESTRAMENTO. Mas nem tudo são flores... E como em qualquer outra profissão, além do sonho de ser um profissional competente existem os desvios e obstáculos que devem ser superados.

Escolhemos a nossa consultora Maíce Costa Carvalho para dar continuidade à nossa série de entrevistas com profissionais que exercem atividades ligadas aos cães, abordando este mês a profissão de adestradora por 2 motivos básicos: primeiro porque na trajetória da equipe do Dog's Times ela foi sempre um apoio constante e uma torcedora generosa pelo nosso sucesso, conquistando seu espaço como colunista em nossa seção DICAS DE CRIAÇÃO, e, em segundo, porque é uma pessoa que tem uma trajetória muito curiosa até a chegada ao Adestramento. Com vocês, nossa amiga, consultora e adestradora e da mais alta confiança, Maíce.


1. Porque é que você escolher ser adestradora? Desde quando? Tem alguma coisa curiosa sobre a escolha?
Comecei a fazer um curso de adestramento de cães quase que por acaso. O adestrador da minha Pastora Alemã insistiu muito para que eu fizesse um curso  de adestrador, que ele estava ministrando.  Então eu fui fazer o curso só para me distrair, e acabei descobrindo uma profissão.

2. Fale sobre a formação do adestrador. Existem cursos especiais? Como se aprende a adestrar? Existem estágios?
B
om depois deste curso inicial, quando tomei contato com esta atividade pela primeira vez, eu comecei a procurar mais material sobre o assunto. Livros, novos métodos, palestras, enfim...busquei mais conhecimento sobre o assunto.

3. O que você acha que faz ou fez falta no começo de sua carreira como adestradora?
Basicamente o que me fez falta foi ter mais conhecimento sobre o mundo canino, e sobre comportamento animal de modo geral. Sei hoje muito mais do que sabia quando comecei a trabalhar nesta área, e continuo sempre atrás de mais conhecimento. A gente nunca pode parar! Tudo vai se somando, e o trabalho fica cada vez melhor.

4. Existem diferentes tipos de adestramento? O que é mais difícil em cada um?
Existem o adestramento básico de obediência; o Adestramento de ataque e defesa; e os adestramentos mais específicos como Agility; adestramento para treinar cães para guia de cegos; para procurar coisa ou pessoas. Todos eles, no entanto, começam com um bom adestramento de obediência. É o fundamento para tudo: ensinar um cão a obedecer.

A questão entre eles não é bem o tipo de dificuldades, mas o tipo de treinamento. Adestramento de  ataque e defesa, por exemplo, costuma usar métodos de reforço negativo. É o método usado nos cães do Exército, e da Polícia Militar.  Pessoalmente não gosto de usar este método, e também desconfio um pouco dos resultados. Neste método o cão obedece para não sentir dor, ou qualquer outro desconforto. Métodos com reforço positivo costumam ter efeitos melhores, e o cão obedece por aceitar sua liderança.  A liderança aqui é estabelecida com base na postura do dono, e não com base na força, como no reforço negativo.  Aliás, tendo 1,53m de altura, dificilmente eu poderia ser adestradora usando o método usado em adestramentos de defesa e ataque.

Treinamento de cão de guia de cegos é uma atividade muito difundida no exterior. Na Europa é muito comum você encontrar cegos com seus cães.  Aqui no Brasil esta prática está só começando. Os outros tipos de treinamentos são bastante específicos.  Exigem também um tipo de conhecimento também bastante específico. Em outras palavras: não existe um adestrador que faça todo tipo de adestramento. Os profissionais são especializados em determinado tipo de adestramento. Aliás, se um profissional diz que faz qualquer tipo de adestramento, é para se desconfiar.

5. Quais seriam os requisitos fundamentais para alguém ser um adestrador?
Paciência, perseverança e sensibilidade são os requisitos mais importantes para se trabalhar com adestramento de cães. É preciso, também saber enxergar o trabalho a longo prazo. Nada se consegue de um dia para o outro. A sensibilidade é particularmente importante para podermos saber se o cão está de fato entendendo o que você está tentando ensinar, para só então poder exigir uma execução perfeita. 

6. Quais foram as 'ilusões' perdidas e quais foram as 'gratas surpresas'?
A maior desilusão talvez tenha sido a percepção que muitas vezes o proprietário que te contrata não está querendo melhorar a relação dele com o cão. Ele te contrata como se você fosse um corretivo para o cão. Tais proprietários não se dispõem minimamente a mudar qualquer hábito e atitude que leve o cão a se comportar mal, mas exige um comportamento perfeito do cão.   E se isso não ocorre a culpa é do cão, e sua.

As gratas surpresas ficam por conta do progresso de muitos cães, que muitas vezes supera as suas expectativas. Essa é a grande recompensa do trabalho.

7. Quais as principais dificuldades na sua profissão. Os donos ou os cães? Porque?
Sem dúvida a maior dificuldade é conscientizar o proprietário que a atitude dele foi fundamental para que seu cão se comportasse daquele jeito.  Na cabeça do dono se o cão se comporta mal, ele não tem nada a ver com isso.  O cão é que não sabe se comportar bem.  Este dono quer que o adestrador “molde” o comportamento do cão nas medidas que o dono quer, e pronto.  Muitas vezes o que este dono quer é um comportamento canino completamente fora do mundo canino. 

Outro ponto complicado é o “achômetro”.  Muitas pessoas que não entendem nada sobre comportamento canino, começam a dar palpites e conselhos que só pioram tudo.   

8. Quais os principais erros que você identifica no cuidado dos cães pelos proprietários? O que você recomendaria?
O erro mais comum é achar que o cão entende o mundo como nós humanos. O que complica a tudo é que o dono acha que está passando um recado, e o cão entende outra coisa. Então a confusão impera. Para podermos nos relacionar bem com um cão, precisamos usar uma linguagem que ele entenda! Aprender noções básicas sobre o mundo canino é fundamental para qualquer dono de cão.

9. Qual foi o pior caso que você já atendeu? Porque? Qual foi o caso mais CURIOSO que você já atendeu?
Era uma cadela de 8 meses que ficava sozinha no jardim o tempo inteiro, e nunca ninguém tinha ensinado qualquer coisa para ela. Ela era absolutamente selvagem, não sofreu nenhum processo de aprendizagem depois que chegou naquela casa, e eu praticamente tive que ensiná-la a aprender; e ensinar a diferença entre uma recompensa e uma repreensão.  Ela era tão carente que qualquer contato com humanos, seja ele positivo ou negativo, já servia de “esmola” para ela. Enfim, comecei do zero!

10. Em termos de regulamentação da profissão e das leis de posse responsável... qual sua opinião sobre elas? O que você ainda sente falta?
A lei da posse responsável foi só o primeiro passo de uma longa caminhada. O que seria preciso era mudar a cabeça do dono de cão, principalmente aqueles donos que acham que a agressividade é uma característica desejável num cão. Ele incentiva esta característica no cão, e a exibe com orgulho.

Não adianta pensar em proibir essa, ou aquela raça. O problema não é o cão!  É o dono dele. Se este tipo de pessoa não tiver um pitt bull para criá-lo como uma fera, ele encontrará uma outra raça que se enquadre no perfil que ele quer.

A melhor solução, sem dúvida é fazer com que essas pessoas comecem a responder civil e criminalmente pelos atos de seus cães.  Então poderá haver mais responsabilidade.

11. Na sua opinião, os profissionais costumam se atualizar diante de tantas novidades?
Os adestradores adeptos dos métodos usados no Exército e na Polícia Militar não tem o costume de se atualizar, até por que os métodos que eles usam são bastante antiquados. No entanto os adestradores que usam métodos mais modernos procuram se especializar mais com palestras, cursos, etc.

12. Qual o relacionamento entre os adestradores e os veterinários?
Na maioria das vezes é muito bom. Os bons profissionais conseguem fazer um trabalho em conjunto que dá ótimos resultados. Infelizmente, é claro, existem muitos veterinários que não entendem de comportamento canino acabam por invadir a nossa área, e acabam por dar maus conselhos. Isso é inevitável!

13. Você é criadora também. Na sua opinião, os criadores colaboram com os adestradores, informando corretamente os futuros proprietários sobre a importância da educação na vida do cão?
Da mesma forma que ocorre com os veterinários, os bons profissionais estão sempre atualizando nas questões que envolvem o mundo canino, e conseguem aconselhar bem. Mas como sempre há os charlatões, que se aventuram a falar muitas bobagens, e os proprietários de primeira viagem muitas vezes acreditam.   
 

14. Digamos que você tenha acabado de adotar/comprar um filhote. Como escolher um bom adestrador? Quais seriam as principais perguntas a fazer e critérios a usar?
 O proprietário deve perguntar se o adestrador usa o método usado na Polícia Militar.  Se o adestrador responder que sim, tal adestrador deve ser recusado, mesmo que ele diga que recompensa o cão com petisco. Este tipo de adestramento trabalha na base da dor e do medo. O cão obedece por medo, e não por respeito.

Procure sempre adestradores que usem reforço positivo, e que tenham como objetivo reestruturar a relação do dono com o cão, e não simplesmente treinar o cão a fazer truques. Se o adestrador não mostrar interesse em treinar junto com o dono, também deve ser descartado.

15. Se você tivesse que escolher hoje, novamente, após esses anos de experiência, você ainda escolheria ser adestradora?
Eu só tenho pena de não ter descoberto esta profissão mais cedo!

16. Basta gostar de animais para ser uma boa adestradora?
Não! Gostar de animais é só o primeiro requisito. É preciso saber ensinar!  É preciso gostar do processo de ensino, e não só ficar pensando no resultado.  O resultado vem naturalmente! 

Veja também os textos de Maíce sobre Comportamento e Adestramento na seção DICAS DE CRIAÇÃO.

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