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Profissão: Adestrador
Retomando nossa série de
entrevistas, este mês vamos enfocar novamente a profissão de adestrador, mas
desta vez abordando aqueles que se especializaram em cães de trabalho e
função.
Para isso, escolhemos o
nosso colaborador José Luis Vetorazzo para abordar os detalhes e as
diferenças de abordagem no adestramento de cães de trabalho.
1. Por que
você escolheu ser adestrador? Desde quando? Tem alguma coisa curiosa sobre a
escolha?
Desde que me
lembro, crio animais. Tinha planos de ser veterinário, como não tive chance de
fazê-lo, a criação e tudo que tive que estudar sobre manejo e comportamento de
mamíferos me levou a adestrar. Essa história já tem uns 25 anos.
2. Fale sobre
sua formação como adestrador. Existem cursos especiais? Como se aprende a
adestrar? Existem estágios?
Tenho formação em
obediência básica e avançada; preparo de cães de proteção pessoal e
patrimonial; de cães de faro (caça de plumas e pêlo; detecção de armas,
explosivos e substâncias químicas); localização e salvamento de desaparecidos;
agility; retriever; e pastoreio de rebanhos.
Para todas as modalidades existem cursos (hoje eu mesmo ministro vários).
Devem ocorrer aulas teóricas e praticas que podem ser bem aproveitadas por
pessoas de boa capacidade intelectual e muita percepção (treinar animais
envolve feeling). É interessante acompanhar o trabalho de outros profissionais
ou instrutores durante algum tempo, assim as experiências se multiplicam.
3. O que você
acha que faz ou fez falta no começo de sua carreira como adestrador?
Ainda hoje falta o reconhecimento oficial da
profissão pelos órgãos governamentais; a criação de normas e um código ético.
Isso regulamentaria a atividade e garantiria melhores resultados ao publico
consumidor desses serviços.
4. Como você
foi levado ao adestramento de cães de trabalho (cães de pastoreio, cães de
guarda, faro e salvamento)?
Foi quase uma retomada das origens. Nenhuma raça de cão moderno foi criada sem
uma função especifica, muitas para auxiliar as pessoas em determinadas
atividades. Realizar um trabalho sério na direção de melhor aproveitar os
potenciais desses animais e garantir uma existência mais adequada a eles foi o
que mais me influenciou. Além disso é algo muito mais emocionante, desafiante
e gratificante, os objetivos são muito mais técnicos e precisos , é muito
bom.....
5. Existem
diferenças muito grandes no processo de adestramento de cães de trabalho ?
Diria que tudo que se refere ao adestramento de cães de trabalho (real) é
muito diferente de simplesmente adestrar um cão para outra função qualquer. As
diferenças aparecem desde a escolha do filhote, até a conduta especifica que
se deve ter com eles na recria e no treino em si. Ter um cão de trabalho é
muito diferente de se ter um pet.
6. Quais
seriam os requisitos fundamentais para alguém ser um adestrador que queira
atuar diretamente com cães de trabalho?
Conhecimentos teóricos e práticos (os mais abrangentes possíveis), muita troca
de idéias com outros profissionais da área, boa infra-estrutura, muita
coordenação motora, muita sensibilidade (capacidade de leitura das situações e
dos animais) e, lógico, anos de suor.
7. Quais são
os passos para a formação de um bom cão de trabalho? O adestramento básico é
fundamental?
Não existe cão de trabalho sem seleção prévia. Estou falando da escolha dos
indivíduos de maior aptidão, não só dessa ou daquela raça, mas sim de
indivíduos dentro de cada raça. Condução adequada da recria do filhote e,
obviamente, um trabalho de adestramento bem planejado fazem toda a diferença.
O adestramento básico (obediência) existe em todas as formas de trabalho,
porém, para cada caso devemos usar uma conduta especifica.
8. Quais
foram as 'ilusões' perdidas e quais foram as 'gratas surpresas'?
Quem vier a se envolver profissionalmente com o assunto verá muito
rapidamente, que não existe “poesia”; é trabalho duro. E visões”
holliwoodianas não tem espaço”. Surpreendentes são os próprios cães, o resto é
previsível.
9. Quais as
principais dificuldades na sua profissão? Os donos, ou os cães? Por quê?
Essa é difícil de responder.
Daria para escrever um livro... rsrs Mas, diria que os animais são “retos” em
sua conduta, podemos saber o que esperar deles. Quando apresentam “problemas”,
os “problemas” originaram-se em seus donos. Conheça o equilíbrio de uma
família olhando para as crianças da casa, se elas não estiverem lá olhe para
os animais...
10. Quais os
principais erros que você identifica no cuidado dos cães pelos proprietários?
O que você recomendaria?
O principal erro é uma coisa chamada antropoformismo (dar forma humana). Por
que ter um cão e querer que ele aja como um ser humano? Se for pra isso
aumente seu circulo de amizades ou faça uma boa terapia para resolver seu lado
social e afetivo.
11.
Qual foi o pior caso que você já atendeu? Porque? Qual foi o caso mais CURIOSO
que você já atendeu?
Os piores casos sempre são os de abandono. Não de abandono nas ruas (esses não
chegam para serem trabalhados), abandono dentro de casa. Adquirir um cão só
por impulso, sem saber ao certo como manejá-lo e “educá-lo”, gera a combinação
certa e fatal para se ter um problema e não um animal com real significado em
nossas vidas.
Curioso não sei se seria o termo mais adequado, mas tive um cliente que
comprou um cão, enviou para nosso canil para recriá-lo. Fiz o adestramento
durante um ano, depois, quando terminei o trabalho, ele se tornou parte da
“nossa turma” e depois de três anos o proprietário disse que já não queria
mais “ter” um cão. Detalhe: ele inflava o peito para dizer aos outros que
tinha um ótimo cão, pagava as despesas e meu trabalho regularmente, mas nunca
veio ver o cão, nunca esteve com ele, só telefonava... Hoje o cão é feliz na
casa de um casal de amigos nossos.
12. Quanto às
leis de posse responsável, qual sua opinião sobre elas? O que você ainda sente
falta?
Em um país onde leis “pegam” ou não “pegam” e a impunidade é a coisa mais
certa, fico sem saber o que pensar, sinto falta de seriedade.
13. Na sua
opinião, os profissionais costumam se atualizar diante de tantas novidades?
São raros os casos de aprimoramento profissional, a maioria diz ter “aprendido
um bom método de adestramento” e não muda mais. Só faria uma pergunta: “existe
método para lidar com uma imensa variedade de indivíduos e situações ??? Isso
não é genérico demais ??? “ Quem aprende ou desenvolve “métodos” para lidar
com seres vivos precisa repensar e mudar (de conduta ou de profissão).
14. Qual o
relacionamento entre os adestradores e os veterinários?
Particularmente tenho um ótimo relacionamento, tenho dois grande amigos que
são veterinários (Gustavo Portella e Nery Dornellis, o primeiro é responsável
por meu canil). Mas a questão talvez se refira a possíveis conflitos
profissionais e, ai, diria que não há novidade. Muitos veterinários (CRMV)
entendem que somente eles podem trabalhar com as questões dos animais (sejam
elas físicas ou comportamentais), acho que isso advém da ação pouco habilitada
e pouco ética de muitos adestradores ou da prepotência de ambos, no entanto
temos grandes profissionais nessas áreas que sabem muito sobre comportamento e
manejo animal. Se alongarmos esse assunto, passaremos pela questão da
regulamentação profissional e a determinação legal das áreas de atuação (que
já comentei na questão 3). Tendo qualidade de trabalho, há espaço para todos e
como se diria “cada macaco no seu galho”.
15.
Você é criador também. Em sua opinião, os criadores colaboram com os
adestradores, informando corretamente os futuros proprietários sobre a
importância da educação na vida do cão?
Posso garantir que são raros os casos de orientação adequada, seja por
desinformação de ambas as partes (vendedor e comprador), seja por erros de
avaliação ou seja por razões puramente comerciais (vender/comprar pode estar
sendo o principal objetivo).
16.
Digamos que você tenha acabado de adotar/comprar um filhote. Como escolher um
bom adestrador? Quais seriam as principais perguntas a fazer e critérios a
usar?
Desculpe-me, mas já há uma falha logo ai. Procuraria um profissional da área
(com boa formação em comportamento animal e cinofilia) antes mesmo de obter
o animal. Um bom profissional poderá orientar os interessados já na análise
das condições de escolha do animal, nas condições de espaço para abrigá-lo e ,
até mesmo, nas características pessoais e familiares que devem ser levadas em
conta nesse momento. Se isso não for feito a tempo,depois, pode ser tarde
demais.
Reconhecer um bom profissional não é difícil, difícil é encontrá-lo. Mas daria
umas dicas:
1. Procure alguém com formação em comportamento animal e não um mero “puxador
de guias e pescoços”.
2. Tenha claro o seu modo de trabalho, procure ver animais já trabalhados por
ele.
3. Avalie os objetivos desse trabalho, o que se deve esperar e o que são só
falácias.
4. Analise referências profissionais.
5. Estude um pouco sobre comportamento canino, isso servirá como referência
para suas avaliações.
17. Se você
tivesse que escolher hoje, novamente, após esses anos de experiência, você
ainda escolheria ser adestrador?
Não voltaria atrás em nada. Hoje, gostaria de fazer Medicina Veterinária
(idéia que tive que abandonar em 1987), mas não deixaria de exercer as funções
de criador e adestrador, nem que fosse só como Hobby.
16. Basta gostar de animais para
ser um bom adestrador?
Sou professor do Ensino Médio e de cursinhos
pré-vestibulares há mais de 15 anos, sempre questiono a escolha de meus alunos
em relação aos cursos de Medicina Veterinária, pois, a maioria deles me diz:
“Ah! Professor eu sempre gostei de animais...., então meus pais acham que eu
devo fazer veterinária....” Não dá para se ter mais erros juntos em uma só
decisão. Afirmo: Somente ter “gosto” por animais é algo duvidoso.
Profissionalmente precisamos falar de coisas mais concretas e de conhecimento
de causa, pois há mais pedras do que caminho suave.
Veja também os textos de José Luis sobre
Adestramento de Cães de Trabalho na seção
DICAS DE
ADESTRAMENTO.
Profissões
ligadas aos cães:
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