| Foto: RICARDO GIRALDEZ |
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| A MÉDICA cega Regina Silva já
percebeu que as pessoas mudaram de comportamento quando se aproximam de seu labrador
Merlin |
M U N D O A N I M A L
Joga pedra no Lulu
Paranóia desencadeada por ataques de cães pit bulls provoca agressões até a
cachorros de raças como poodle
LUÍSA ALCALDE E GUSTAVO CHACRA
A caça às bruxas travada de alguns meses para cá contra os
cães pit bulls desencadeou uma verdadeira paranóia nas ruas e estendeu o medo da
população a outras raças conhecidas pelo bom temperamento. Proprietários que antes
desfilavam tranquilamente em parques, praças e calçadas com seus cachorros tornaram-se
alvo de insultos e agressões físicas por pessoas apavoradas com a simples presença dos
lulus. Os que mais vêm sofrendo discriminação em seus passeios diários são as raças
que lembram os temidos pit bulls como os boxers, cuja semelhança do focinho achatado e da
orelha cortada tem causado problemas, e os cachorros de grande porte como o rottweiler e
até o tranquilo labrador. "A sucessão de besteiras gerada por pessoas que não têm
competência técnica para falar de animais está criando esse pânico", atesta José
Alberto Pereira da Silva, presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do
Estado de São Paulo. "Sem exageros, isso parece mais um holocausto aos bichos."
Em Itapetininga (SP) um homem colocou um pedaço de carne na ponta de um punhal e o
ofereceu a um boxer preso na casa do comerciante Francisco Matarazzo. Quando o cachorro
chegou perto para comer a carne teve o punhal enfiado em sua boca. "Ele me disse que
resolveu eliminar meu cão porque ouviu na televisão que esses cachorros estão matando
criancinhas", lamenta Matarazzo.
| Foto: RICARDO GIRALDEZ |
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| ATAQUE Graziella e o poodle toy Bidu:
chutes e cirurgia |
O medo à raça pit bull chegou a extremos em Juiz de Fora
(MG). O mecânico Antônio Carlos Pereira passeava com seu cão próximo a uma barraca e,
de repente, foi surpreendido por um homem que atirou contra seu animal que não resistiu
ao ferimento e morreu. Crimes como esse estão previstos na Lei nº 9.605 que estabelece
que quem praticar abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais domésticos ou domesticados
pode ser condenado de três meses a um ano de detenção, além de pagar multa. Se o
animal morrer, a pena pode ser aumentada de um sexto a um terço. "Hoje quem passeia
com seu cão é visto nas ruas como se tivesse uma arma nas mãos", compara o médico
veterinário André Maldonado. "Nada justifica acidentes ou óbitos, mas são os
proprietários que precisam ser punidos pelos atos de seus animais e não o contrário
porque não existe raça boa e raça má. O que determina a conduta do cão é o modo como
ele é criado e treinado."
O correto, ensina a médica veterinária Silvia Parisi, é
evitar locais com grande concentração de pessoas principalmente crianças, passear com o
cachorro sempre com a coleira e, no caso de cães com temperamento agressivo, usar a
focinheira. Se o proprietário escolher ter um bicho bravo para guardar a casa, o certo é
colocar um portão de ferro reforçado, muro alto e uma placa indicando a presença do
cão. Mesmo com tais medidas, o pavor coletivo aos bichos de estimação está levando
alguns proprietários a adotar proteção semelhante às que são praticadas contra
bandidos.
| Foto: RICARDO GIRALDEZ |
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| MEDO René Gumiel está tão
assustado que contratou um segurança para seu rottweiler Kay |
Exagero O empresário paulista René Gumiel, por
exemplo, só sai com sua rottweiler acompanhado de um segurança. "As pessoas param
os carros para xingar e jogam coisas. Certa vez, alguns garotos partiram para a agressão,
e só não me machuquei porque meu segurança interveio", afirma. Ele diz que o
animal é tão dócil que não reage às agressões. Nem os animais de pequeno porte
estão escapando. Na última semana, no bairro de Perdizes, na capital paulista, Bidu, um
poodle toy de nove meses levou um chute na pata traseira direita e terá de ser submetido
a uma cirurgia para voltar a correr. O agressor não queria ver cachorros na calçada,
pois a mordida "poderia machucar alguém", conta a dona Graziella
Michaelis.
Em Itajubá (MG) a violência atingiu uma cadela da raça
labrador. Dark, a vítima, que está grávida, tomou uma pedrada na barriga ao ir passear
com sua dona de 13 anos. Quem atirou a pedra foram duas senhoras que teriam confundido a
cadela com um pit bull, como se isso fosse motivo para a agressão. Situação parecida
passou o rottweiler Held, de São Paulo. Sempre criado atrás de grades, nunca havia dado
problemas para os moradores da rua. Mas, depois das inúmeras reportagens que saíram
dizendo que a sua raça era perigosa, a situação mudou. Os vizinhos chegaram a perguntar
para a sua dona, Solange Prates, como ela tinha coragem de criar um assassino dentro do
próprio lar. No domingo, Held amanheceu passando mal. Tinham jogado veneno no jardim da
casa. A médica Regina Carvalho e Silva ainda não foi agredida, mas, por ser cega e estar
sempre acompanhada de um cão guia, da raça labrador, ela percebeu diferenças no
comportamento das pessoas. "Ficam perguntando se eu não tenho medo de andar com o
Merlin e evitam fazer carinho nele", diz a médica.
Publicado na revista
ISTO É, 24/04/99

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