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Profissão: Veterinário
Com o avanço de novas
técnicas e tratamentos, a medicina veterinária tem agregado e formado novos
especialistas. Uma das especialidades que vem crescendo e se firmando pelos
bons resultados obtidos é a Homeopatia. Escolhemos a Dra. Neísa
Lourenço
para falar sobre essa modalidade de tratamento dos nossos cães. Conheça mais
sobre sua experiência e escolhas lendo a entrevista abaixo.
1. Porque é que você escolher ser
veterinária? Desde quando? Tem alguma coisa curiosa sobre a escolha?
Escolhi ser veterinária
porque adoro animais, particularmente cães e gatos. Na realidade quando
optei, no antigo curso científico, agora 2º grau pela área biomédica,
pensava em fazer medicina, pediatria. Em uma aula onde o professor utilizava
um porquinho da índia para vivissecção (prática hoje condenada), fiquei
revoltada, e aí lembrei que poderia fazer veterinária. E assim foi.
2. Fale sobre a formação do veterinário.
Quantos anos de curso? Como se estrutura (parte teórica X parte prática)? Estágios são
obrigatórios?
Atualmente são 5 anos de curso, e eu ainda acho pouco tempo. Veja que o
veterinário tanto pode se dedicar à saúde dos grandes animais (animais de
produção, bois, porcos, etc), como à saúde dos pequenos animais (animais
de companhia) e ainda à parte de microbiologia e tecnologia dos alimentos de
origem animal. A meu ver 5 anos para vermos tudo isso é muito pouco. Ou
então que se optasse desde a entrada na faculdade por uma dessas 3 áreas. A
parte prática tambem costuma ser deficiente, e acabamos tendo que fazer a
prática em estágios conseguidos fora da faculdade.
3. Você acha suficiente o conhecimento
recebido na Faculdade? O que faz/fez falta?
Como coloquei antes, acho que falta muita coisa. Não dá tempo de vermos
tudo de todas as áreas.
4. Você se especializou numa
área relativamente nova da medicina veterinária que é a Homeopatia. Como
foi que você sentiu que era esse o caminho a seguir? Você enfrentou
preconceitos por causa da escolha?
Apesar de ter 20 anos de
formada em veterinária a homeopatia é relativamente nova para mim. Sempre
tive vontade de conhece-la mas nunca arranjava tempo para isso. Até que
escolhi para minha filha mais nova uma médica homeopata. Com isso eu
descobri, vendo os resultados na minha filha, que tudo que se diz sobre a
homeopatia ser lenta, de não servir para tudo, etc, não é verdadeiro. Com
essa descoberta consegui arranjar tempo para fazer o curso de 2 anos para
formação em homeopatia.
Sobre os preconceitos eles existem sim, por parte de leigos e de outros
médicos. Alguns que nunca experimentaram a homeopatia a rotulam como
ineficaz, outros que escolheram mal seus médicos ou que se automedicaram
tambem a acham ineficaz. E acabam fazendo propaganda contra, quando antes de
emitirem opinião deveriam se informar melhor ou se consultar com um profissional
competente na área. Eu pessoalmente sempre acho a homeopatia mais indicada
que a alopatia. Acho apenas que a sua limitação vem com o médico, e nào
com a terapêutica. Ou seja, o médico precisa saber escolher bem o
medicamento a ser usado. Tentando exemplificar melhor, na alopatia se estamos
com uma dor da cabeça, temos várias opções de medicamentos igualmente
eficientes, que irão nos tirar a dor. Já na homeopatia, precisamos de
detalhes, precisamos saber como é essa dor (onde começa, onde acaba, se
lateja, se pulsa, se melhora com o frio ou com o calor, etc), para que
possamos escolher. Então quem não é especialista na área pode acabar
escolhendo mal um medicamento, e aí a homeopatia não surtirá efeito. E se
isso acontece, mesmo sendo um erro do médico, é a terapêutica que fica mal
vista.
5. A partir do exercício da
sua profissão... Você acha que o seu dia-a-dia é melhor, pior ou igual ao
que você imaginava antes de entrar para o mercado de trabalho? Quais foram as
'ilusões' perdidas e quais foram as 'gratas surpresas'?
Temos muitas ilusões perdidas. Donos que acabam pela saída fácil da
eutanásia porque cansaram de cuidar do animal, ou porque o custo do
tratamento é alto, na opinião dele. Donos que abandonam seus animais nas
ruas porque eles estão doentes. Donos que "esquecem" seu cão no
fundo do quintal porque ele já deixou de ser um "brinquedo" novo.
Colegas de profissão que condenam o tratamento do outro colega para tentar
angariar o cliente; colegas que nivelam por baixo, tentando convencer o
cliente com preços baixos (mas qualidade duvidosa); colegas que aplicam
vacinas e dão "uma olhadinha" no animal no balcão de uma pet shop.
Mas por outro lado temos as gratas surpresas, como por exemplo quando um
trabalhador semi analfabeto entra no consultório com o dinheiro da consulta
enroladinho nas mãos, mas disposto a salvar o seu amigo leal e sincero. E
temos também os colegas que sabem trabalhar em equipe, mesmo que em locais
diferentes, que indicam o colega especialista, que indicam o laboratório da
clínica concorrente, etc.
6. Você atua em MG e no RJ...
Existem diferenças no tratamento recebido pelos cães por seus donos? Se sim,
quais são as principais?
Com certeza que existem, talvez até porque em Minas em não esteja na
capital. Mas vejo que na cidade do Rio de Janeiro as pessoas estão mais
preocupadas realmente com o bem estar do animal, com a sua saúde, levam seu
animal rotineiramente ao veterinário, fazem as vacinas, se preocupam com
eles. Já aqui em Juiz de Fora a disparidade ainda é muito grande, muitos
animais são "abandonados" em suas próprias casas.
7. Quais as principais dificuldades na sua
profissão. Os donos ou os cães? Porque?
São os donos. A
principal dificuldade é o fator custo. O atendimento veterinário (consultas,
vacinações, etc) tem um baixo custo, a meu ver. Se compararmos com um
médico humano, os preços do veterinário são irrisórios. E porque, se o
material, a maquinaria, a responsabilidade, o custo em sua formação, são
praticamente os mesmos? Será que o veterinário não tem o direito de viver
como um médico humano, morando nos mesmo condomínios, tendo os mesmos
carros, fazendo as mesmas excursões ? Mas mesmo assim vemos que os donos
muitas vezes relutam para gastar dinheiro numa consulta com o veterinário.
Alem disso os donos, muitas vezes por excesso de zelo, criam animais
intratáveis, manhosos, mimados, agressivos, etc, o que dificulta enormemente
não só o trabalho do veterinário mas tambem do dono no momento em que esse
animal precisa de algum tipo de tratamento.
Voltando a falar em custos, o que acho que é bem mais caro na veterinária
são os exames, mas até porque não temos muita "rotatividade". Ou
seja, para que o laboratório cobre um exame ele tem que computar o preço do
kit diagnóstico, por exemplo, e o custo será proporcionalmente mais barato
quanto maior for o uso desse kit. Mas muitas vezes o exame quase não é
feito, então os que o são ficam com alto custo. E forma-se um circulo
vicioso, o exame não é feito porque custa caro, e custa caro porque poucos o
fazem.
8. Quais os principais erros que você
identifica no cuidado dos cães pelos proprietários? O que você recomendaria?
Conforme já coloque acima, comumente vemos cães e gatos
"malcriados". Então eu colocaria a criação num lugar
importantíssimo na escala de valores dos cuidados com um cão. Aconselharia a
todos que querem ter um cãozinho em casa que antes pesquisassem sobre a raça
desejada, não somente suas características físicas, mas principalmente as
comportamentais. É muito comum que as pessoas escolham essa ou aquela raça
apenas porque um vizinho ou um parente tem um exemplar dela, e eles acharam
"bonitinho". Mas não procuram se informar se eles estaram dispostos
a aturar "kilos" de pêlo pela casa, ou se poderão pentear o cão
diariamente ou ainda se terão pique para acompanhar sua necessidade de
atividade, ou se terão pulso firme para educar um temperamental. E isso acaba
gerando a quantidade de doações e abandonos que vemos aí, donos
insatisfeitos, cães infelizes, doentes ou mordedores. E isso tudo poderia ser
evitado se o animal racional (nós humanos) pensasse e pesquisasse mais antes
de adquirir um dito irracional.
9. Qual foi o pior caso que você já
atendeu? Porque? Qual foi o caso mais CURIOSO que você já atendeu?
Não sei bem qual o pior, muitas muitas vezes temos que lutar com a morte,
e algumas vezes perdemos e isso sempre me deixa arrasada. Mas talvez esses
não sejam os piores casos; talvez os piores sejam aqueles que até teríamos
condições de vencer, mas o dono desiste e manda o animal para a
eutanásia.
Um caso curioso foi de uma cadelinha com sarna que estava reagindo bastante
bem ao tratamento, mas toda vez em que o dono brigava com a esposa ela piorava
bastante. Eu só consegui reverter isso no momento em que convenci a dona que
não deveria demonstrar tristeza ou pesar na frente da cadela, que na frente
dela deveria estar sempre feliz e contente.
10. Em termos de infra-estrutura... A
Medicina Veterinária vem evoluindo muito nos últimos anos. O que você ainda sente
falta?
Acho que ainda nos falta muito, se comparado com a medicina humana. Mas uma
coisa que seria bom que chegasse logo ao Brasil é a tomografia e a
ressonância magnética. Com elas teríamos diagnósticos bem mais precisos e
precoces, nos dando tempo de intervir rapidamente e mais
"certeiramente".
11. Na sua opinião, os profissionais
costumam se atualizar diante de tantas novidades?
Acho que não. Faço parte de algumas listas de discussões em veterinária
na Internet e vejo preocupação da grande maioria de estar sempre reciclando.
Mas sei que isso não é mostra do real; acho que a grande maioria acaba se
acomodando, talvez porque a profissão não seja valorizada por todas as
pessoas. Engraçado que quando falamos em um médico humano sempre
"enchemos" a boca e falamos o Dr. fulano de tal. Mas quando se trata
de um veterinário as coisas não são bem assim. Muitas vezes fui atendida em
casas onde fui chamada para atender ao cão, pela porta de serviço.
12. Você é a favor de campanhas de
castração, como as desenvolvidas pelas Prefeituras? O que falta para que elas melhorem e
sejam mais eficientes?
Acho que falta infra estrutura da própria prefeitura para acomodar esses
cães, locais adequados para a realização das castrações e vontade
política de que elas sejam de fato realizadas em massa.
13. Na sua
opinião, os criadores colaboram com os veterinários, informando corretamente os futuros
proprietários sobre a importância do veterinário na vida do cão?
Os mais conscientes sim, mas a grande maioria não. Chegam até a orientar
os proprietários sobre o que fazer, como cuidar de alguns problemas, realizam
pequenas cirurgias como cortes de cauda (alguns até fazem cortes de orelhas),
e outros ainda chegam ao cumulo de internar um animal doente e oferecer
tratamento como se fossem um hospital veterinário.
14. Digamos que você tenha acabado de
adotar/comprar um filhote. Como escolher um bom veterinário? Quais seriam as principais
perguntas a fazer e critérios a usar?
A regra básica, se
você nunca teve um cão antes, se é completamente leigo no assunto, é você
pedir indicação a alguém; de preferencia a alguém cujo o cão já adoeceu
por várias vezes. Fora isso, o veterinário tem que ser coerente, não
administrar medicamentos em excesso, estar sempre disponível para lhe atender
e jamais menosprezar uma preocupação sua. É claro que isso tudo com alguns
limites, pois lembre-se que o veterinário apesar de ser médico também tem
família, precisa de algum descanso e lazer.
15. Se você tivesse que escolher hoje,
novamente, após esses anos de experiência, você ainda escolheria ser veterinária?
Com certeza!!!!!
16. Basta gostar de animais para
ser uma boa veterinária?
Mas sem nenhuma dúvida. Eu tinha um amigo muito gozador que dizia que isso
não era verdade, pois assim como o advogado criminalista não tinha que
gostar do réu assassino, o veterinário não era obrigado a gostar de
animais. Mas acho que é fundamental, pois só esse gostar já nos dá uma
certa segurança de que o veterinário vai se empenhar ao máximo em estudar,
pesquisar, procurar se informar e dar o melhor de si no tratamento do seu
animalzinho.!
Neísa T Lourenço é veterinária,
formada em 1980, pela Universidade Federal Fluminense, tendo sempre se
dedicado à Clínica de Pequenos Animais. Par saber mais sobre a Dra. Neísa,
visite: http://www.powerline.com.br/neisavet/
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