Um dia de herói


Latidos de cães alertaram agentes penitenciários; dos 180 que queriam escapar, um foi morto, e outros sete ficaram feridos

Domingos Peixoto/Agência "O Globo"
Pam, um dos cães que evitaram a fuga, foi ferido a tiros e teve que ser tratado por veterinário

No Rio, vira-latas frustram fuga de prisão

PEDRO DANTAS
DA SUCURSAL DO RIO

Quatro cachorros vira-latas "adotados" por agentes penitenciários frustraram uma fuga de presos na Casa de Custódia Muniz Sodré, em Bangu, na zona oeste do Rio. Um preso morreu e sete ficaram feridos, dois em estado grave, durante a tentativa de fuga, que envolveu 180 detentos. O vira-lata Pam, que foi ferido a tiros, está tendo seu tratamento custeado pelos agentes. 

Agentes penitenciários contaram que, por volta de 3h40, a guarda externa da casa de custódia foi alertada sobre a movimentação dos presos pelos latidos dos cães, que vivem no presídio. "Ouvi os latidos, estava na guarita e vi quando os presos saíram correndo. O tiroteio durou cerca de 20 minutos", disse o agente Mário Antônio Marangoni, 49, que levou um disparo de raspão na coxa direita.

Grades serradas

De acordo com a direção do Desipe (Departamento do Sistema Penitenciário), 180 presos das celas 1,2 e 9 do pavilhão A serraram as grades e foram até o pátio externo com lençóis amarrados, para escalar o muro da prisão. Ao perceber a movimentação, o cachorro Pam latiu e avançou em direção aos presos, que o alvejaram. Em seguida, o agente Marangoni tocou o alarme. 

Armado com uma pistola, o preso Paulo César de Oliveira, 26, que cumpria pena por assalto a mão armada, foi morto com um tiro no baço quando já escalava o muro dos fundos do presídio. Os detentos Erivaldo dos Santos Pereira e Paulo Roberto dos Santos foram baleados e até o fechamento desta edição permaneciam hospitalizados em estado grave. Agentes disseram que na semana passada comunicaram a Secretaria de Justiça sobre uma provável tentativa de fuga, criticaram o policiamento externo e contaram que dois carros aguardavam os presos nos fundos do presídio. O Desipe negou as informações.

Armas apreendidas

Apesar de os agentes penitenciários afirmarem que havia mais presos armados, o Desipe apreendeu apenas a pistola do preso morto e duas réplicas de armas. Após a rebelião, os agentes queriam realizar revista completa em todos os presos do pavilhão A, mas o Desipe optou por encerrar as buscas e liberar as visitas. 

A Casa de Custódia Muniz Sodré tem capacidade para abrigar até 1.488 presos que aguardam o julgamento. Mas também abriga detentos que, já condenados, esperam transferência. Segundo o diretor do Desipe, Manoel Pedro da Silva, a lotação ontem era de 1.437 presos, vigiados por nove agentes penitenciários. "Esse número não é suficiente. O governo está abrindo concurso e vai chamar 300 agentes para suprir essa necessidade nas unidades prisionais", disse Silva. Em abril, a Muniz Sodré foi criticada no relatório da Comissão de Direitos Humanos da ONU que classificou como "apavorante" o sistema prisional brasileiro. Entre os agentes, a prisão ganhou o apelido de Camboja - o país do Sudeste Asiático onde pelo menos 1,5 milhão de pessoas foram mortas durante o governo do Khmer Vermelho, nos anos 70.

O vigilante Pam

Pam, assim como os outros três vira-latas que alertaram para a tentativa de fuga, vivia circulando pelos arredores da casa de custódia até que os agentes passaram a lhe dar comida. "Eles fazem parte da nossa vigilância", disse o agente penitenciário Marangoni. 

Atendido em uma clínica veterinária de Campo Grande (zona oeste), Pam -que significa firmeza ou certeza na gíria carioca - teve o tratamento patrocinado por agentes penitenciários e deve voltar à ativa, apesar de possíveis sequelas.
"A bala queimou a face direita antes de se alojar no cotovelo direito do animal, que deve passar a mancar, mas voltará a andar", disse o veterinário Eduardo Alves Fernandes.

Folha de São Paulo, 04/07/2001

 

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