Os Jogos
Pan-americanos 2007 no Rio de Janeiro, antes mesmo de sua realização, já
apresentam um considerável legado de ganhos para a segurança pública do país.
Com a realização deles, ficará depois estabelecida uma ampla base de política
nacional de gestão para o setor, a qual chega ao detalhe e sofisticação da
preparação do emprego técnico e tático de cães farejadores em proveito da
segurança pública. Isso tudo sem olvidar a integração das forças de segurança
pública envolvidas no certame, objetivo maior que já vem sendo colimado bem
antes da realização dos jogos.
Tal legado não inclui apenas equipamentos grandiosos como parecem ser as
aeronaves e artefatos de alta tecnologia de emprego policial, mas também itens
tão essenciais e muitas vezes quase “invisíveis”, caso do histórico binômio
“homem-cão” em sua associação milenar. Ao final do PAN-2007, o Rio de Janeiro
terá sido servido por significativo número de cinófilos das Forças Armadas,
bombeiros, policiais estaduais e guardas municipais, serviços que serão depois
integrados aos demais tradicionalmente providos localmente por suas
respectivas instituições nas unidades federativas correspondentes,
principalmente em portos, aeroportos e correios, locais onde hoje é essencial
a detecção preventiva de explosivos e drogas.
Fica assim fortalecida uma parte importante da política nacional de gestão da
segurança pública, como é o caso com a utilização de cães em atividades
específicas, ao mesmo tempo em que é promovida, uma vez mais, a integração das
forças de segurança pública. Foi com tal espírito profissional, mas
sabidamente efetivo, de ir da alta tecnologia ao detalhe tradicional que a
Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) do Ministério da Justiça,
com o suporte do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
tratou também de adestrar cães das mais diversas corporações para
incorporá-los a uma poderosa “força técnica” de comprovado e efetivo emprego
tático em grandes eventos, e que, mesmo depois dos jogos, continuará pronta
para servir à sociedade brasileira como um todo.
Foi planejada uma atividade de coroamento dos treinamentos/adestramentos
cinotécnicos previamente realizados ao longo do tempo que antecedeu os jogos,
com ela sendo desdobrada ao longo do território nacional, estrategicamente
planejada para realizar-se, em evento final, no Rio de janeiro, no início de
2007.
Os cães treinados sob os auspícios da Senasp estão capacitados para atuar
segundo diferentes cenários táticos, incluindo detecção de explosivos
(adestramento de longo prazo) localização de drogas (adestramento de médio
prazo) e até mesmo encontro de pessoas ou cadáveres soterrados sob escombros
(adestramento de curto prazo). Tudo foi realizado em jornadas de trabalho de
até seis horas diárias, no transcurso dos vários programas de
treinamento/adestramento desenhados pela Senasp.
Os conjuntos “cinófilo-cão” se deslocaram de diferentes regiões do país,
incluindo os entes federativos da Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Rio
de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Pará. Os
participantes, no melhor espírito de integração já tradicionalmente praticado
pela Senasp, incluíram representantes de instituições como as Forças Armadas,
Corpos de Bombeiros, Guardas Municipais, Polícias Militares, Polícias Civis e
Polícia Rodoviária Federal.
Quando forem todos levados ao Rio de Janeiro, em julho de 2007, os animais
adestrados sob a égide da liderança da Senasp passarão por um tratamento
veterinário preventivo e por um evento de reinamento/adestramento
técnico-tático final, a fim de que tudo esteja na mais perfeita ordem para
emprego dos conjuntos “cinófilo-cão” durante os jogos.
Homens e animais ficarão alojados em instalações de dupla finalidade, com um
alojamento especial para tal fim localizado na Barra da Tijuca, próximo ao
local onde será instalada a Vila Olímpica. Um detalhe importante é que tais
instalações estarão adaptadas de modo a não separar os cinófilos de seus cães
e, com isso, facilitar não só a rotina diária de adestramento, como também a
manutenção do canil e a correta alimentação dos animais.
Para a preparação de tais atividades, a Senasp contou com aliados estrangeiros
que tradicionalmente atuam em nível de excelência no setor, caso do Serviço
Canadense de Inteligência de Segurança (SCIS) e do “Federal Bureau of
Investigation” (FBI) dos Estados Unidos da América, obviamente a partir de uma
firme disposição de cooperação internacional da parte de seus respectivos
países.
As atividades técnicas e táticas de preparação em cinotecnia e em emprego de
cães farejadores obedeceram um rigoroso critério de seleção, incluindo, no
tocante aos condutores, avaliações de firmeza de caráter, paciência e
entusiasmo. Era necessário, também que o “agente da segurança pública”
envolvido tivesse dedicação exclusiva a tal atividade.
Já os animais deveriam demonstrar características e pré-requisitos
fundamentais para atividades com o uso do faro, possuir instinto de caça,
disciplina e concentração.
Além de capacitar os agentes de segurança que atuam na área de busca,
salvamento e resgate, visando uma atuação mais eficaz, o treinamento buscou
também, concomitantemente, padronizar as ações de segurança pública com
emprego cães, ao mesmo tempo que, integrando as forças de segurança pública
que estarão envolvidas no evento Pan-2007.
É conhecida mundialmente a aplicação, em atividades de segurança pública, das
raças “pastor alemão”, “pastor belga”, ”labrador” e “english springer spaniel”.
O investimento sabidamente possui retorno várias vezes maior que os custos, o
que aponta não só a eficácia como também a eficiência na utilização dos
chamados “cães farejadores”. O latido desses cães, ou seu comportamento
postural, traduzem a interação e comunicação entre eles e seus
condutores-cinófilos. O latido ou postura, em verdade, é o sinal de que algo
ou alguém foi encontrado.
Muitos desses cães vivem na própria residência de seus condutores, o que
assegura sua sociabilidade e relacionamento estreito com aqueles com quem
atuam no dia-a-dia. Isso deriva do fato de que seu emprego pressupõe que homem
e animal se constituam enquanto equipe ou binômio, devendo atuar com base na
confiança e entendimento, mesmo em situações de grande estresse e perigo, ao
mesmo tempo que demandando rapidez de procedimentos, certamente o caso ao
serem empregados em áreas sinistradas e sob risco de desabamento.
Os “pastores alemães”, com sua longa e histórica tradição na atividade de
segurança pública, praticamente representam a única raça utilizada pelos
profissionais do setor na Alemanha. Na glamourização deste tipo de cão eles
ficaram famosos na mídia, com inúmeras produções cinematográficas a seu
respeito.
A raça “Labrador”, geralmente utilizada tecnicamente como “cães passivos para
farejo de drogas”, é empregada para perceber, pelo faro, a presença de drogas,
bastando para tanto farejar as pessoas que passam, sem que tenham sequer que
aproximar-se ameaçadoramente delas.
Já os animais da raça “Beagle” são comumente utilizados em aeroportos para
farejar peças de bagagem eventualmente contendo itens não-permitidos pelas
normas alfandegárias nacionais, e, dado sua natureza amistosa, não causam
transtorno ao circularem em locais de grande afluência de público.
Algumas outras raças são treinadas para farejar o odor de cadáveres, com o
olfato de tais animais sendo sensível ao ponto de detectar a presença de
despojos humanos até mesmo sob a água.
Já os chamados “cães ativos” buscam detectar drogas em locais e em objetos em
lugar de pessoas. Os “Springer Daniels” são mais utilizados em relação à
detecção de explosivos, sendo conhecidos por sua inteligência aguda,
curiosidade e pelo grande entusiasmo com que realizam suas atividades.
"Cães são nosso vínculo com o paraíso. Eles não conhecem nem a maldade, nem o
ciúme e nem a insatisfação. Sentar ao lado de um deles na encosta de uma
montanha em uma linda tarde é voltar ao jardim do éden, onde não fazer nada
não quer dizer tédio, mas sim paz."
( Milan Kundera )
Professor Doutor George Felipe de Lima Dantas