Ruim prá Cachorro
Pesquisa mostra que assassinos maltratavam animais na infância


Por Deborah Gianinni

As primeiras vítimas dos "serial killers" (assassinos em série) não são homens nem mulheres, mas cães, gatos e até rãs.

De acordo com um estudo feito pelo Humane Society International (HSI), uma organização não-governamental norte-americana que se preocupa com a crueldade contra os animais, a maioria dos "serial killers" nos Estados Unidos maltratavam bichos quando eram crianças.

A pesquisa foi divulgada no 2º Congresso Brasileiro do Bem-Estar Animal - que aconteceu no último final de semana em São Paulo - pelo diretor da HSI, Neil Trent. O estudo traz exemplos de assassinos famosos como Albert Desalvo ("O estrangulador de Boston"), que matou 13 mulheres, e Jeffrey L. Dahmer ("O canibal"), que assassinou 17 meninos.
Desalvo, na infância, prendia cachorros e gatos em caixotes de laranjas e atirava flechas através das tábuas. Gostava também de colocar um cão e um gato famintos dentro da mesma caixa para assistir à briga.

Dahmer, o "canibal de Milwaukee", maltratava severamente animais. Ele empalava rãs, decapitava cães e prendia com estacas gatos em árvores no seu quintal.

"Esse estudo mostra que o animal também se insere na sociedade no aspecto da violência", afirma Marco Ciampi, organizador do congresso.

CRIANÇAS

Mas, atitudes como puxar o rabo do gato ou arremessar o cachorro não indicam que seu filho é um "serial killer" em potencial.

"A criança pequena, até os cinco anos, não tem noção de moral entre o bem e o mal, o certo e o errado. Não há a intenção de machucar o bicho", afirma o psicanalista Renato Mezan.

De acordo com a psicóloga Maira Tanis, a criança que maltrata é porque geralmente se sente maltratada. "Há a identificação com o agressor, provavelmente dentro da família. Muitas dessas crianças se sentem peixinhos de aquários maltratados", diz.

A partir dos seis anos, o ato de machucar animais merece mais atenção. "A criança pode estar com grande dificuldade em lidar com a agressividade dela. Agora, que ela vai virar "serial killer', isso é coisa de americano", brinca a psicóloga.
Nos Estados Unidos, essa pesquisa deve ajudar o FBI, polícia federal norte-americana, a traçar o perfil de assassinos em série e convencer alguns Estados a aprimorar leis sobre crueldade contra animais.

A LEI

No Brasil, ferir ou mutilar animal doméstico, domesticado, silvestre, nativo ou exótico é crime, desde fevereiro deste ano, de acordo com a nova Lei Ambiental. Quem maltratar os bichos vai para a cadeia -pena de detenção de três meses- e ainda tem de pagar uma multa.

A denúncia de maus-tratos pode ser feita por qualquer pessoa (não necessariamente pelo dono do animal), que tenha provas (fotos, testemunhas ou laudo do veterinário), em uma delegacia comum.

Há também mais de 70 organizações não governamentais no Brasil que se preocupam com a crueldade contra animais. Elas recebem denúncias e fazem o encaminhamento à delegacia. As principais são a União Internacional Protetora dos Animais (Uipa), em São Paulo, a Liga de Prevenção à Crueldade Contra o Animal (Lpca), em Belo Horizonte, e a World Society for Protetion of Animals (Wspa), no Rio de Janeiro.

Serviço: Uipa. Tel. (011) 900-0216. Lpca. Tel. (031) 224-4735. Wspa. Tel (021) 527-7158/286-3940.

Publicado na REVISTA DA FOLHA, 25/10/98

 

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