O verdadeiro
mundo cão
Escolas, asilos, hospitais, casas, não importa o lugar; conviver
com um cachorro ajuda a curar depressão, perder peso e preencher a solidão
Caio Esteves/ Folha Imagem
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Adilson Mário Belcastro e o rotweiller Ayron, que
acabou com a briga familiar |
Por Kiyomori Mori
A cena é assustadora: Nagoya, uma rotweiller de
55 quilos, deixa o portão do canil e corre em direção a um grupo de crianças. Em
segundos, ela salta sobre Leonardo Raposo, 17, portador de problemas emocionais graves.
Mas não há sangue nem mordidas; só festa, gargalhadas e lambidas.
Nagoya pertence ao canil Cambará, e a visita aos animais é uma das atividades da escola
Refazenda, voltada para crianças portadoras de deficiência. "Esse convívio é um
dos melhores recursos terapêuticos em casos assim. Elas preferem o canil ao teatro, a
antiga vedete entre as atividades da escola", conta a psicóloga e diretora Maria
Lúcia Piveli, 38. As crianças podem brincar, passear com os cães e dar nomes ao
filhotes ("uma excelente atividade de fonoaudiologia e afetividade", segundo
Maria Lúcia).
Mas os efeitos positivos da convivência com cachorros são bem mais abrangentes dos
revelados na dobradinha Leonardo/Nagoya. Dezenas de pesquisas e estudos realizados ao
redor do mundo mostram que pessoas que têm cães vivem mais e com melhor qualidade de
vida do que as que não têm.
"Com todos os avanços da ciência, é incrível o que o "beijo' de um cão
ainda pode fazer. Os benefícios à saúde são tão grandes que eles deveriam ser
indicados a todos. Deveria ser rotina em todos hospitais a "prescrição' de animais
de estimação para pessoas doentes", disse à Revista o médico Larry Dossey,
consultor de medicina alternativa do Instituto Nacional de Saúde dos EUA e autor de
livros sobre o tema ("Reinventing Medicine", à venda na livraria virtual Barnes
and Noble por US$ 11,20).
Dossey não está sozinho. Na Austrália, em 1997, uma pesquisa acompanhou 2.805 pessoas
por 89 meses. Foi observado que as mulheres que tinham animais de estimação Äe que
precisavam de antidepressivosÄ tomavam doses menores do que as que não tinham. Um outro
estudo, do médico Aaron Katcher, da Escola de Medicina Veterinária da Universidade da
Pensilvânia (EUA), indicou que o contato de hipertensos com animais de estimação Ä e
aí vale até um peixinho de aquárioÄ abaixa a pressão arterial. Mas o cachorro é
mesmo o predileto.
Segundo levantamento do Ibope e do site Petsite, 59% da população tem bicho de
estimação Äe destes, 44% (cerca de 41 milhões) escolheram o cão, contra 16% que
preferem os gatos. "O cão é quase um ser humano. É como ter um amigo que se
preocupa e tem grande amor por você. E amor, todos sabem, faz bem à saúde",
declara Dossey.
Alguém se lembrou do clássico "o cachorro é um ser humano como qualquer
outro", cunhado pelo ex-ministro do trabalho Antônio Rogério Magri ao ser flagrado
usando carro oficial para levar suas cadelas ao veterinário? Pois é, segundo esses
entusiastas, Magri estava certo.
Conheça abaixo algumas estórias de pessoas que encontraram no cão um verdadeiro amigo e
resolveram problemas pessoais.
Crianças e idosos Quinzenalmente, a especialista em comportamento animal Hannelore
Fuchs e uma equipe de voluntários visitam pacientes no Hospital da Criança, inclusive
alguns internados na UTI. Foram 1.600 visitas em dois anos, sem nenhum acidente
registrado. "Os animais são treinados, vacinados e escolhidos a dedo. Além disso,
para cada bicho, um voluntário acompanha passo-a-passo o contato do paciente com o
cachorro."
Christina Rosa de Paola, médica do hospital infantil, aprova. "O animal ajuda a
integrar as crianças, quebrando o gelo entre elas", afirma. Nos Estados Unidos, o
serviço existe há mais de 20 anos, engloba 2.500 equipes de voluntários, em 45 Estados,
e atende 350 mil pessoas por ano.
Apesar dos bons resultados, alguns projetos enfrentam resistências, principalmente nos
primeiros contatos. "Muitas pessoas acham que o bicho vai transmitir doenças, o que
não ocorre. A visita reduz o isolamento e a solidão dos idosos", afirma o
zootecnista Alexandre Rossi, criador do projeto Cão Terapeuta, que visita semanalmente
asilos e locais que atendem crianças com câncer.
"Alguns idosos dizem que o cão é a única "pessoa' que os visita, que até os
familiares já se esqueceram deles. Muitos têm até porta-retratos de seu bicho
preferido. Estamos treinando outros 30 cães para ampliar o projeto", conta
Alexandre.
"Minha filha adora a visita da Mell (uma maltês), isso ajuda a descontrair o clima
pesado de um tratamento hospitalar", afirma Louise Marry Klass, 26, mãe de Nathalie,
6, internada no Hospital da Crianças para tratar uma bronquite asmática. Louise já sabe
que o período no hospital vai deixar uma "sequela" em Nathalie: a vontade de
comprar um cão quando voltar para casa.
Ginástica Quem vê a adestradora de cães Sueli Freitas, 49, correr até quatro
horas diárias ao lado da sheepdog Sasha, praticando "agility" (corrida de
obstáculos para cachorros) no parque do Ibirapuera, não imagina que, há apenas um ano e
meio, ela sofria com as crises de artrose e mal conseguia movimentar os dedos. Para
combater o problema, Sueli praticava natação e era obrigada a tomar medicamentos
diariamente.
A convivência com cães mudou a vida de Suely. "Larguei a natação e já parei com
a medicação. Meu cardiologista diz que estou bem, tenho bastante fôlego e tonifiquei
meus músculos. Agora, vivo com cães 24 horas por dia, e consegui unir o que mais gosto
com o que preciso: tenho saúde e posso ficar o dia inteiro em contato com eles."
Solidão Ada Nicolaewsky, 49, sofria de depressão profunda com a morte da mãe.
Havia perdido 22 quilos e tomava altas doses de antidepressivos. As filhas distantes,
vivendo em Israel, pioravam a solidão ("você sabe como isso é difícil para uma
mãe judia..."). Aí Ada descobriu Flufy: fez novos amigos, recuperou o peso perdido
e reduziu a medicação. Flufy não é nenhum novo "Prozac" ou alguma seita
messiânica. Trata-se de um poodle de 11 meses.
"Meu médico disse que foi a melhor coisa que fiz. Hoje, conheço e converso com
pessoas nas ruas graças ao Flufy, que ajuda a quebrar o gelo e iniciar o bate-papo. A
garotada do prédio nos chama para as festinhas e, no mês que vem, vou fazer a do Flufy.
Todos já disseram que vão vir", anima-se.
Perder peso Que tal arrumar um cão para ajudá-lo na árdua tarefa de emagrecer? A
radialista Regina Ramoska, 34, já perdeu 3 quilos com seu husky siberiano Igor. "Eu
era sedentária, mas queria mudar. Era uma daquelas pessoas que se matriculavam na
academia e no mês seguinte desistiam." Regina teve de mudar de hábitos quando
resolver comprar um cão. Vivendo em um apartamento pequeno, 48 m2, o bicho precisa sair
todos os dias para se exercitar. "Conheci bastante gente graças ao Igor, inclusive o
meu atual namorado. Hoje, não sou mais estressada no trabalho e aprendi a viver
melhor", anima-se.
Não é uma experiência inédita. Um estudo realizado em 1993, publicado na revista
"Harvard Health Letter", demonstra que a companhia de animais deixa as pessoas
com o humor mais constante, graças ao afeto incondicional dos bichos. Outros efeitos do
convívio: queda nos índices de pressão sanguínea, frequência cardíaca e nível de
ansiedade.
Amigo de fé "Ele é minha única amizade sempre sincera", afirma a
modelo da Ford Karina Bacchi, 23, sobre seu cão yorkshire Teobaldo, o Téo.
Karina diz que, além de forçar a redução das calorias da dieta, a vida de modelo fez
rarear o número de "verdadeiros" amigos. "Sei que muitos me procuram e me
tratam bem por interesse. Téo não, ele tem um afeto desinteressado e incondicional. Não
importa o que aconteça, ele sempre me recebe com alegria e felicidade. Aprendi a ser
menos egoísta e a dividir meu tempo com meu cachorro", afirma.
Karina costuma comprar presentes para seu companheiro e faz questão de que venha
embrulhado, para abrir na frente dele e garantir o ritual da "surpresa".
"Nas lojas, tem gente que estranha, mas ele gosta de receber o presente assim."
É uma esquisitice bem compartilhada. Pesquisa de 1999 da Sociedade Norte-Americana de
Hospitais Veterinários, realizada com 1.200 donos de bichos de estimação, demonstra que
embrulhar presente para o animal é hábito praticado por 63% dos donos; 84% dos
entrevistados ainda se denominam como "papai" ou "mamãe" de seu
bicho. > Téo é o segundo cachorro da modelo. Há dois anos, ela perdeu outro da mesma
raça, "devorado" por um maior na rua. Adquirir um outro bicho foi uma decisão
difícil. "Tivemos que superar o trauma, mas foi a melhor coisa que fiz."
Os olhos "Ei, dona, não pode entrar com cão no hospital"; "Credo,
um cachorro aqui dentro!"; "Será que morde?" Essas são frases que a
médica Maria Regina Carvalho Silva, 50, ouve todo dia. Deficiente visual, ela não se
separa do labrador Merlin, de 7 anos, inclusive no interior do Hospital do Ipiranga, onde
trabalha.
Mas entre os pacientes da médica o estranhamento dá lugar à descontração. "As
pessoas ficam mais receptivas, o Merlin abre um canal de comunicação. As consultas
tornam-se mais fluidas", acredita. Maria Regina tem um precedente famoso: dizem que o
psicanalista Sigmund Freud levava seu cão chow-chow Jo-Fi durante as consultas.
Ela conta que Merlin foi atropelado há um ano e precisou ficar um mês sem trabalhar.
"Tive de voltar a pedir ajuda aos outros e perdi minha independência. Percebi tudo
que eu já havia conquistado ao lado dele."
Nos Estados Unidos, existem cerca de 6.500 cães-guias atualmente, um hábito que começou
no pós-guerra para ajudar veteranos da Segunda Guerra. No Brasil, cão-guia não é lá
muito respeitado. Em maio deste ano, uma deficiente visual precisou de ordem judicial para
entrar com seu animal no metrô. A Associação Cão-Guia de Cego registra apenas 15
animais aptos a conduzir pessoas em todo o país. Até a Coréia do Sul, famosa por
colocar mais cães na panela do que na coleira, tem cerca de quatro vezes mais cães-guias
do que o Brasil.
Pacificador Os irmãos Adilson Mário Belcastro e Adriana passaram oito meses sem
conversar, mesmo vivendo sob o mesmo teto. "A gente brigava muito e chegamos ao ponto
de falar somente o essencial. Se ela ficava na sala, eu saía para a cozinha." A
situação mudou com a chegada do rotweiller Ayron. "Ele foi o catalisador da minha
família. De repente, nós estávamos conversando sobre o cachorro e seus problemas de
saúde. A vida em casa voltou ao normal e sei que devo tudo a Ayron", afirma Adilson.
Em 1998, pesquisa da Universidade de Búfalo (EUA) Äapresentada no encontro anual da
American Psychosomatic SocietyÄ realizada com 50 casais que tinham animais e 50 que não
tinham, demonstrou que lares com bichos apresentavam redução do estresse, ajudando a
manter a vida a dois mais estável.
Há um mês, Ayron teve um problema grave de saúde, uma doença congênita que
comprometia sua pata. O custo do tratamento foi orçado em R$ 1.300. "Não pensei
duas vezes e paguei tudo. Sugeriram que eu sacrificasse o Ayron, mas eu jamais
deixaria." Adylson gasta R$ 280 mensais para cuidar de seu cão. "A minha
namorada tinha ciúmes do Ayron e do que eu gastava com ele. Nesse caso, eu também não
pensei duas vezes..." Adivinha quem foi "sacrificado"?
Fonte: Revista da
Folha - SP
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